
O Convento de Santa Clara, no Funchal, em Portugal, voltou a abrir as portas ao público após uma reabilitação completa que resgatou a beleza e a importância histórica do edifício.
Essas descobertas lançam nova luz sobre o papel das mulheres religiosas na Madeira entre os séculos XVI e XIX. Elas estavam longe de ser meras figuras contemplativas.
As freiras de Santa Clara eram ativas, organizadas e, dentro das limitações do seu tempo, exerceram formas próprias de influência econômica e social. A restauração do convento permite agora que esse legado seja conhecido por todos, valorizando tanto o edifício quanto as histórias femininas que ele abrigou.
Igreja Paralela
O convento é um dos edifícios mais antigos do Funchal e representa um marco importante da arquitetura religiosa da ilha. Sua construção inicial remonta ao século XV, e o complexo foi sendo ampliado e adaptado ao longo dos séculos, refletindo os momentos de maior riqueza e devoção da comunidade religiosa que o ocupava.
A recente obra de restauro teve como princípio básico o respeito à estrutura original, embora tenha introduzido melhorias para garantir segurança, acessibilidade e novas formas de visitação.
Elementos históricos como talhas douradas, retábulos e painéis de azulejo foram cuidadosamente recuperados, assegurando a fidelidade visual e espiritual do lugar. Assim, o convento se moderniza sem perder a alma, tornando-se acessível a novos públicos.
Mais do que um monumento preservado, o Convento de Santa Clara é agora uma ferramenta viva para a educação e a cultura.
As escolhas arquitetônicas e museológicas feitas na restauração tornam possível compreender como o espaço religioso funcionava, quais eram os rituais diários e de que forma a vida interna se conectava com o exterior — inclusive por meios financeiros, como se revelou mais tarde.
O poder financeiro das enclausuradas
Entre as revelações mais marcantes trazidas à tona com a reabertura está a prática das religiosas de emprestar dinheiro com cobrança de juros.
Esse tipo de atividade, que à primeira vista pode parecer contraditória com a ideia de uma vida monástica voltada apenas à espiritualidade, era na verdade uma resposta pragmática às necessidades da ordem e à realidade da época. O convento possuía recursos, e as freiras sabiam como utilizá-los para garantir a sustentabilidade da instituição.
Essas mulheres recebiam joias de terceiros como forma de garantia por empréstimos concedidos. Os objetos eram cuidadosamente guardados e devolvidos após o pagamento das dívidas, com os devidos acréscimos de juros.
É um modelo rudimentar de operação financeira, mas que funcionava de forma eficaz e organizada, permitindo que o convento gerisse seus bens com relativa autonomia. Era, em essência, um sistema de crédito informal controlado por mulheres.
Esse aspecto da vida conventual rompe com os estereótipos comuns e revela uma dimensão surpreendente da história das ordens religiosas femininas. Longe de estarem isoladas do mundo, essas freiras compreendiam os mecanismos econômicos e faziam uso estratégico dos seus recursos.
Com isso, tornaram-se agentes relevantes na rede social e financeira do Funchal, consolidando o convento como um núcleo de poder espiritual e material.
A restauração recente não teve apenas um objetivo conservacionista. Tratou-se também de um gesto de abertura: permitir que o público acesse e conheça um espaço antes reservado à clausura.
O convento foi cuidadosamente preparado para receber visitantes, com sinalização moderna, áreas interpretativas e recursos que ajudam a compreender as camadas de tempo, fé e história que se sobrepõem naquele local. Tudo foi feito para que a experiência de visita fosse imersiva e informativa.
Com essa nova vida, o convento passa a integrar o circuito cultural da cidade. As atividades ali realizadas vão além do turismo tradicional: há espaço para exposições, estudos históricos, ações educativas e eventos que conectam o passado ao presente.
O lugar transforma-se, assim, num ponto de encontro entre diferentes gerações e saberes, ampliando sua função de agente cultural da Madeira.
Ao valorizar tanto a arquitetura quanto a história das mulheres que ali viveram, a reabilitação do Convento de Santa Clara representa uma vitória para a memória coletiva.
As histórias de fé, de gestão e até de finanças protagonizadas por essas religiosas não apenas ganham visibilidade, mas também inspiram reflexões mais amplas sobre o papel das mulheres e da religião na formação da sociedade madeirense.
Fonte: Por Agência Correio da Bahia,
Publicado em 6 de julho de 2025 às 09:00



