O drama dos Macêdo, a herança bilionária do trio elétrico e o silêncio das estrelas do Carnaval

Em 1950, a bordo de um Ford T – automóvel também chamado de Fobica – Dodô e Osmar mudaram para sempre o destino da Bahia. O que começou como uma brincadeira despretensiosa para tocar frevo pelas ruas de Salvador, tornou-se o maior símbolo da nossa folia e uma máquina de democratizar a alegria. Nascia o trio elétrico.
A enfermidade ataca áreas vitais do cérebro, provocando a morte gradual de neurônios e comprometendo a fala, a motricidade e até a memória do paciente. Atualmente, Aroldo apresenta limitações motoras e cognitivas severas. Com o custo alto do tratamento, a família enfrenta dificuldades financeiras.
Sim, eu sei. Infelizmente, muitas famílias enfrentam dificuldades de toda ordem, inclusive financeiras. O ponto não é exatamente esse. A questão aqui é o paradoxo entre a situação de Aroldo Macêdo e as cifras astronômicas que a invenção de seu pai movimenta anualmente. Mesmo sem considerar a exportação da tecnologia do trio elétrico, os números são impressionantes

O Carnaval de Salvador – cujo maior e principal diferencial é o trio elétrico – atrai cerca de 11 milhões de pessoas para os circuitos e movimenta por volta de R$ 2,6 bilhões na economia, gerando lucros imensos para empresários e grandes estrelas. Enquanto isso, a família Macêdo organiza “vaquinha” via PIX para custear despesas médicas.
Na última segunda-feira (9), nomes importantes como Gilberto Gil e Gerônimo – entre outros – se uniram aos irmãos de Aroldo em um show beneficente de apoio à família. O evento, embora emocionante, entristece. No palco, o desabafo de Armandinho Macêdo (também filho de Osmar e, portanto, irmão de Aroldo) foi a materialização do clichê “soco no estômago”. Ele disse o óbvio: todo mundo ganha com o trio elétrico menos a família de quem o inventou.
Neste momento, enquanto o asfalto de Salvador treme sob pés de milhões de pessoas, as grandes estrelas da axé music, que detêm impérios erguidos sobre a invenção de Dodô e Osmar, agem como se nada houvera. Até onde vi (este texto foi escrito na noite de quinta, 12), não parece ocorrer a nenhuma delas sequer a possibilidade de que seria bom tom amparar o herdeiro de quem os colocou no topo da pirâmide do show business. Acho incrível que consigam se desconectar tanto assim.

Ao ler isso, você pode pensar que a questão é meramente legal, institucional. Ou mesmo culpa dos próprios Dodô e Osmar e suas famílias, que não geriram bem a invenção. Respeito a sua opinião. Porém, embora a gente suponha que as famílias provavelmente falharam na resolução de questões relativas à patente, a herança deixada por Dodô e Osmar é de conhecimento público e uma dívida nossa – coletiva – de caráter moral e ético. Portanto, é antes de tudo uma questão de honestidade, dignidade e solidariedade amparar quem nos deu o instrumento mais poderoso de geração de fortunas e de projeção da história da música baiana.
A materialização dessas palavras sempre presentes nos discursos de tanta gente (honestidade, dignidade, ética e solidariedade) agora significa apenas – para grandes estrelas – apenas reconhecimento e convocação em seus poderosos microfones ou um percentual miudinho de qualquer cachê milionário feito em cima de trios elétricos neste verão. Doar ou mobilizar, publicizar, resolver esse problema não seria favor nem caridade, mas o pagamento de uma dívida histórica com quem fez a cama para tanta gente se deitar.
(Doações para a “vaquinha” organizada por familiares e amigos podem ser feitas via PIX utilizando o CPF 592.402.107-68 em nome de Margarida Maria Oliveira dos Santos Macêdo ou por transferência bancária para o Banco Nubank na agência 0001 e conta corrente 4189159-3.)
Fonte: Correio da Bahia, 15/02/2026



