
O 1º de Maio é um feriado que consagrou-se como marco internacional da luta de classes. A origem remete à greve de trabalhadores ocorrida em 1886, em Chicago, nos Estados Unidos, quando operários reivindicavam jornada de oito horas por dia e melhores condições de trabalho. O movimento entrou para a História como um dos marcos mais simbólicos da organização operária internacional e, desde então, a data passou a ser lembrada como Dia Internacional dos Trabalhadores.
Mais de um século depois, o feriado segue carregando essa memória, embora nem sempre com o mesmo significado.
O historiador Gabriel Mendonça conta como o movimento de lutas chegou por aqui. “No Brasil, o caráter reivindicatório chegou com os imigrantes europeus no início do século XX e teve seu ápice na Greve Geral de 1917, em São Paulo, que evidenciou a força do movimento operário frente à elite agroexportadora da Primeira República”.
Documentos da época, guardados no Arquivo do Senado, mostram que a medida não se limitou a reconhecer a pauta dos trabalhadores: havia também a intenção de controlar o conteúdo político da data.
Até então, sindicatos e lideranças operárias usavam o 1º de Maio para organizar comícios e protestos contra a exploração no trabalho, em um país onde praticamente não existiam direitos trabalhistas consolidados.

Ao oficializar a data, o governo queria deslocar a ênfase da reivindicação para a celebração.
Na mensagem enviada ao Congresso em 1925, Bernardes afirmou que a substituição da luta pelos festejos já era uma “salutar tendência” e defendeu que a data passasse a consagrar o “trabalho ordeiro e útil”.

Dia do Trabalho
O projeto varguista tinha o intuito de tutelar os trabalhadores e afastar as influências anarquistas e comunistas do movimento operário, ressalta Mendonça.
Durante o Estado Novo, o feriado se transformou em palco de grandes discursos, desfiles e celebrações públicas. A mensagem era clara: as conquistas trabalhistas apareciam como benesses do governo, e não como resultado da organização dos próprios trabalhadores.
A imprensa teve papel fundamental no projeto de Vargas. Segundo Gabriel Mendonça, o governo acompanhava bem de perto as informações que circulavam. “Com a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) em 1939, durante o Estado Novo, a mídia foi submetida a um forte controle. Jornais alinhados ao governo (como A Noite e A Manhã) cobriam o 1º de Maio exaltando a figura de Getúlio Vargas como um benfeitor e destacando a harmonia entre as classes. A retórica oficial dominava as manchetes”, registra.
Em 1º de maio de 1943, Vargas assinou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), reforçando a simbologia política da data.
Antes disso, o país ainda dava seus primeiros passos na legislação trabalhista. Quando o feriado foi instituído, havia, apenas, duas regras bastante amplas sobre o tema: uma, de 1923, que previa aposentadoria apenas para funcionários das ferrovias; outra, de 1919, que garantia indenização em caso de acidente de trabalho.
Assim, o nome que acabou prevalecendo no calendário oficial brasileiro: “Dia do Trabalho” contribuiu para suavizar a lembrança direta da luta dos trabalhadores, sendo inscrita na memória coletiva como um dia para lazer e descanso e eventos institucionais — e não de protestos contra empresários e governos.
Fonte: Bnews, 01/05/2026



