
Esqueça a ideia de que o endividamento da população de baixa renda está ligado a consumo por impulso. O buraco é mais embaixo e bem mais duro de contornar. Levantamento do instituto Nexus, encomendado pelo BTG Pactual, divulgado pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo, mostra que a dívida, nesse grupo, costuma começar onde não dá para cortar: saúde, comida, contas fixas. Além disso, piora quando a renda simplesmente desaparece.
Entre quem vive com até um salário mínimo, 41% apontam gastos com saúde como gatilho para se endividar. É um peso desproporcional. Na média geral, esse índice cai para 32%. À medida que a renda sobe, a pressão diminui: 37% na faixa de um a dois salários mínimos, 30% entre dois e cinco, e 19% acima disso.
O básico que não fecha
Alimentação, contas de luz, água, aluguel. O trivial, que deveria caber no orçamento, é justamente o que mais pesa. Metade dos brasileiros (50%) cita essas despesas do dia a dia como principal origem das dívidas. É um padrão que atravessa todas as faixas de renda, mas com impactos muito diferentes dependendo do quanto se ganha.
Já no topo da pirâmide, a lógica muda. As contas seguem relevantes (49%), mas perdem espaço para outro tipo de pressão: o consumo financiado. Entre quem recebe mais de cinco salários mínimos, 35% apontam compras parceladas e financiamentos como origem das dívidas. Na sequência, aparece a queda de renda mensal, com 20%.
A leitura de quem acompanha esses dados reforça o diagnóstico. “O brasileiro de menor renda se endivida por despesas que não pode evitar, muitas vezes recorrentes, o que dificulta a quitação e faz a dívida crescer ao longo do tempo”, afirma Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, à colunista.
O cenário ajuda a explicar por que o endividamento segue elevado no país. Em fevereiro, as famílias brasileiras comprometeram 49,9% da renda com dívidas — mesmo patamar do recorde histórico da série iniciada em 2005, de acordo com o Banco Central. O peso das parcelas no orçamento também atingiu novo pico: 29,7%.
Os números aparecem num momento em que o governo tenta conter a inadimplência com iniciativas como o Desenrola 2.0. Na prática, porém, o retrato captado pela pesquisa sugere um problema mais estrutural: quando a dívida nasce do essencial, cortar gastos deixa de ser uma opção viável.
O levantamento ouviu 2.028 pessoas por telefone, entre os dias 24 e 26 de abril, e foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-01075/2026.
Fonte: Bnews, 04/05/2026



