
A decisão do governo dos Estados Unidos de designar as duas maiores facções criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras escancara uma ampla transformação da política de segurança norte-americana, reposicionando novamente a América Latina no centro da estratégia geopolítica de Washington.
Na prática, a medida amplia o alcance jurídico das sanções dos Estados Unidos e aproxima as facções brasileiras do mesmo enquadramento aplicado a cartéis mexicanos, gangues centro-americanas e grupos armados internacionais.
Segundo o Departamento de Estado, as redes criminosas “se estendem muito além das fronteiras do Brasil” e afetam diretamente interesses de segurança nacional dos EUA.
A ofensiva foi ampliada na sexta-feira (29/5), quando as duas facções passaram a integrar oficialmente a lista de entidades sancionadas pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), órgão vinculado ao Departamento do Tesouro dos EUA.
Uma relação cada vez mais marcada pela convergência entre segurança, narcotráfico, crime transnacional, disputa geopolítica e projeção internacional de poder.
- O anúncio ocorreu um dia após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmar que pediu pessoalmente ao Donald Trump a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.
- Após a decisão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por outro lado, demonstrou preocupação com os efeitos da medida e defendeu o fortalecimento da cooperação bilateral no combate ao crime organizado, sem enquadrar facções brasileiras como organizações terroristas.
- No início de maio, durante agenda bilateral com Trump, Lula apresentou propostas de integração regional na área de segurança pública e convidou os Estados Unidos a participarem de iniciativas brasileiras voltadas ao combate ao narcotráfico e às organizações criminosas transnacionais.
- Apesar da cooperação já existente entre os dois países em áreas de inteligência e segurança pública, integrantes do governo brasileiro avaliam que a classificação das facções como terroristas pode abrir precedentes para formas mais amplas de pressão internacional sobre temas considerados internos do Brasil.
- O governo Lula também afirmou que medidas unilaterais adotadas pelos EUA podem “enfraquecer o combate aos criminosos” e criar riscos à soberania nacional.
Nova arquitetura de segurança hemisférica
Ao Metrópoles, o professor Vitor de Pieri, especialista em geografia humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), afirmou que a classificação do PCC e do Comando Vermelho não deve ser interpretada como um episódio isolado.
Segundo ele, a medida integra uma transformação mais ampla da política de segurança norte-americana e da própria definição de terrorismo adotada por Washington nas últimas décadas.
O documento transforma o Hemisfério Ocidental em prioridade da segurança nacional dos EUA e resgata princípios ligados à Doutrina Monroe e ao Corolário Roosevelt, usados no início do século 20 para justificar intervenções norte-americanas na América Latina sob o argumento de garantir estabilidade regional.
“A América Latina tornou-se um dos principais espaços dessa transformação”, afirma.
Para Pieri, narcotráfico, terrorismo, crime organizado, segurança energética, migração e disputa geopolítica passaram a ser tratados pelos EUA como dimensões interligadas dentro de uma mesma lógica estratégica.
“O risco percebido por setores do Estado brasileiro é que a expansão das categorias de terrorismo e narcoterrorismo produza justificativas para formas ampliadas de pressão diplomática, monitoramento e influência externa sobre regiões consideradas estratégicas.”
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