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Mãe leva tapas da filha pequena, e vídeo causa discussão sobre educar crianças: ‘Bater gera traumas’

Uma mãe gerou polêmica ao divulgar um vídeo no qual recebe tapas no rosto, dados pela própria filha. “Quando você é a favor da educação respeitosa e sua filha age assim”, diz a legenda do vídeo, em tom de humor.

A influenciadora Janaína Braga tem mais de 493 mil seguidores apenas no TikTok, onde produz conteúdos sobre maternidade.

Janaína recebeu diversas críticas por supostamente não reagir à agressão da filha Cristal, de 2 anos. Em entrevista ao R7, a influenciadora se disse assustada com a repercussão.

“Está sendo bem difícil lidar com tanto ‘hate’. Com outras mães me julgando, e com comentários tão maldosos”, desabafou ela.

Após todas as reações ruins, Janaína chegou a limitar os comentários do vídeo, que tinham até mesmo mensagens incentivando a violência contra a menina: “Teve um que disse ‘essa criança deveria tomar uma martelada'”.

Janaína explicou que as cenas vistas no vídeo são uma exceção, e que Cristal não costuma ter esse tipo de comportamento. “Eu recebi inúmeras mensagens falando que ‘estava gravando ao invés de acolher’ e ninguém parou para realmente ouvir a resposta. A Cristal nunca tinha feito aquilo, então eu gravei para mostrar pro pai dela como ela tinha ficado quando ele saiu, e logo depois desliguei a câmera e segurei ela até se acalmar”.

Segundo a criadora de conteúdo, o tamanho de Cristal parece ter confundido muita gente: “Ela tem 2 aninhos, apesar de parecer grande é muito pequena, inclusive ainda usa fraldas. As pessoas estão agindo como se ela fosse uma adolescente de 15 anos me batendo e é horroroso de ver esses comentários”.

Cristina Mendes Gigliotti Borsari, coordenadora do setor de psicologia do hospital infantil Sabará, detalhou um pouco melhor o que seria a ‘educação respeitosa’ citada no vídeo, também chamada de ‘educação positiva’: “Quando a gente pensa nessa educação positiva, nós estamos falando de pais e mães que prezam muitas vezes pelo diálogo, pelas conversas, e estabelecem regras claras. As regras são muito importantes para estabelecer os limites e promover uma disciplina na casa, na rotina da criança. O diálogo é importante porque ele faz com que a criança consiga expressar suas emoções, seus sentimentos, e o respeito mútuo”.

A médica disse que o método também visa mostrar para a criança que ela não pode se comportar de maneiras que façam mal aos outros: “O respeito mútuo é uma das bases desse modelo de educar e, no vídeo, a gente vê que a criança está batendo no rosto, [demonstrando] um pouco de descontrole. É o momento em que o pai precisa ser um pouco mais enérgico com a criança, no sentido de impor o limite. Não estamos falando, em hipótese alguma, de gritar ou bater na criança, de comportamentos punitivos”.

Janaína revelou que é contra qualquer tipo de punição física para a filha: “Bater em uma criança para ensinar só vai gerar traumas. A criança vai sentir raiva, vai ter medo, vai tentar fazer o ‘errado’ escondido. Bater nunca vai ensinar, só vai afastar seu filho de você”. A influenciadora chegou a gravar um novo vídeo, para mostrar que Cristal é, na verdade, uma criança muito doce, e para esclarecer algumas das dúvidas que a primeira publicação gerou.

Cristina argumentou que é possível ser firme com a criança, sem que isso represente qualquer ameaça física ou psicológica: “De repente, segurar as mãos, olhar nos olhos, pedir para ela respirar, conversar com ela, perguntar o que ela está sentindo, para ela expressar esse sentimento. É isso que a psicologia positiva e a educação positiva fazem. Tem técnicas que a gente pode fazer com os filhos no momento da birra”, disse a médica.

A especialista ensinou uma dessas técnicas para tentar acalmar as crianças em momentos de estresse: “A gente usa muito com crianças na primeira infância, de 0 a 5 anos, você vai ‘assoprar a florzinha’. Você segura uma florzinha e fala para a criança assoprar. Nisso a criança está tendo um controle da respiração, vai acalmando essa serotonina, essa adrenalina que está exacerbada no sistema neurológico, e a criança vai trazendo mais tranquilidade”.

Exposição nas redes sociais

A médica pediatra Mariele Rios, professora de pediatria da Universidade de Itaúna, disse em entrevista ao R7 que muitas pessoas ainda carregam visões antiquadas do que é educar uma criança: “Infelizmente muitas das famílias ainda acham que a educação precisa vir através de uma hierarquia rígida, em que o pai e a mãe mandam a qualquer custo, inclusive através de força, violência, ódio, para que uma criança obedeça”.

“Essa menina precisa é de uma boa chinelada para aprender”, dizia um dos comentários no Twitter. “Não precisa bater na criança, mas um pequeno susto, um tapinha leve, isso tudo ajuda a ensinar, sim”, concordou outra internauta.

A psicóloga Cristina Borsari reforçou que punir as crianças não tem resultados bons para o desenvolvimento, e deu alternativas que funcionariam melhor: “O comportamento de punição, de castigo, de palmadas, ele não deve existir. Isso tem estudos já que comprovam. O que você tem que fazer? Regras claras que devem ser seguidas e se não forem você perde algum privilégio. Aos fins de semana a criança pode dormir um pouco mais tarde, tomar um sorvete, pode fazer algo que é muito prazeroso para ela? ‘Você não cumpriu o combinado, então você não pode tomar o sorvete esse fim de semana’. Sempre mostrando causa e efeito”.

Para a médica Mariele Rios, um certo nível de agressividade é normal em crianças, principalmente até os 4 anos, já que elas ainda não sabem expressar corretamente os sentimentos. Por isso, é importante ter uma comunicação bastante clara: “A função do adulto responsável é ensinar aquela criança que ela pode ter aquela sensação [raiva, frustração, tristeza], mas que ela não pode desrespeitar os outros, ela não pode ultrapassar os seus limites, então a função do adulto nesse caso é primeiro não permitir que essa criança se machucasse, então sim, você pode segurar a criança, segurar a mão dessa criança, dizer pra ela ‘Olha, eu entendo que você está frustrada, eu entendo que você está com raiva, mas bater em mim não é uma opção. Nessa casa ninguém encosta a mão em ninguém”.

A quantidade de comentários recebidos por Janaína fez com que a influenciadora refletisse sobre seu trabalho: “Confesso que sim, pensei em desistir. Mas, depois de conversar com muitas pessoas, eu vi que muita gente já passou por isso e é inevitável”.

Ela ainda explicou ao R7 o motivo para ter escolhido compartilhar o vídeo, que tinha sido feito apenas para mostrar ao pai de Cristal: “Eu gravo vídeos para a internet desde os 14 anos, mas quando engravidei, e veio a onda do TikTok, foi que meus vídeos começaram a chamar um grande público. Desde então eu abordo o tema maternidade com muito humor, que na verdade foi a minha intenção quando postei o vídeo, fazer uma ‘trend’ do TikTok”.

Para a psicóloga Cristina, a empatia também é fundamental para estar presente na internet: “A gente sempre precisa se colocar no lugar do outro e respeitar os valores que a mãe e o pai julgam essenciais para a criação e educação de um filho. A gente vê hoje uma sociedade muito julgadora, muito imediatista, onde não existe o respeito por aquilo que a gente tem como premissa”.

“É claro que se você vê algo que infringe leis, que traz um prejuízo para o desenvolvimento de uma criança, algo que ameaça a integridade física de uma criança, a gente precisa intervir, conversar sobre isso. A internet virou um lugar em que eu deposito a minha fala de uma forma que vá atingir o outro sem me colocar no lugar desse outro”, pondera a especialista.

Mariele Rios concordou com a psicóloga, relembrando que existe mesmo uma lei que protege as crianças de castigos físicos: “Tem a Lei da Palmada, que as pessoas não levam a sério, mas é muito sério. A punição física, a punição emocional, inclusive o castigo, eles têm consequências na vida da criança”, argumentou ela ao citar a Lei nº 13.010, conhecida como Lei Menino Bernardo.

A médica dá outro exemplo para ilustrar como bater em uma criança não faz sentido: “Então se você tem um idoso e o idoso acorda de madrugada e chora, você vai bater no idoso? Se ele faz cocô no lugar errado, você vai bater? Claro que não, você sabe que ele tá perdendo aquela capacidade, aquele controle. E a criança é a mesma coisa, ela não é um adulto. Então a gente tem que entender, e auxiliar e cuidar sem as punições”.

Cada família funciona de um jeito

Segundo a médica Cristina Borsari, a criação e educação de uma criança são questões complexas e, por isso, fazem os ânimos ficarem tão exaltados na internet: “Eu penso muito como psicóloga, como educadora e mãe que cada família possui uma opinião e o método que ela considera ideal para a criação do seu filho e isso vai ser baseado num conjunto de fatores, vai ser baseada na história da família, como esses pais foram educados, como eles tiveram acesso e orientação dos seus próprios pais, quais são os valores da família”.

A especialista completa que não existe uma fórmula secreta para educar uma criança: “A gente não tem uma regra, uma receita de bolo. Cada família é única, cada família tem os seus valores. A gente tem estudos científicos, orientações profissionais e a gente pode ver o que funciona melhor na rotina da minha casa. Castigos, bater, isso hoje a gente recrimina. A gente precisa colocar essa criança como protagonista do seu comportamento. Tentando sempre pelo diálogo, pelo afeto, pelo carinho, pelo tempo de qualidade com o seu filho”.

Após todo o alvoroço, Janaína fez uma reflexão sobre a maternidade e voltou a dizer que dá limites para a filha sem violência: “Está bem longe de ser um conto de fadas [a maternidade]. Foi um fato totalmente isolado o do vídeo, ela tem limites e é uma criança supercarinhosa. Cada uma sabe o que é melhor para o seu filho e nenhuma mãe deveria julgar a outra”.

A médica Mariele Rios concluiu explicando que o processo de educar uma criança é algo normalmente repetitivo: “Você vai ter que repetir mil vezes para aquela criança, você vai ter que usar o lúdico, você vai ter que ter paciência, você vai ter que ser exemplo. É demorado, é um caminho demorado, mas ele é um destino mais certo do que o medo”.

 

 

 

 

 

 

R7, 12/05/2023

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