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Para general Santos Cruz, Braga Netto não tem outra opção a não ser respeitar a Constituição na Defesa

Um dos primeiros ministros a deixar o governo Jair Bolsonaro, o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, 68, considera que não há chance de golpe militar no Brasil, temor que surgiu com as trocas promovidas pelo presidente no Ministério da Defesa e nos comandos das Forças Armadas.

Na segunda-feira (29), Bolsonaro anunciou a demissão do general da reserva Fernando Azevedo do Ministério da Defesa. Em seu lugar, entra o também general da reserva Walter Braga Netto, que comandava a Casa Civil.

No dia seguinte, os três comandantes das Forças Armadas renunciaram em bloco por discordar do presidente da República.
Essas movimentações representam a maior crise na área desde a demissão do então ministro do Exército, Sylvio Frota, em 1977, pelo presidente Ernesto Geisel. E também deixaram a sociedade em alerta para o risco de ruptura institucional.

Para Santos Cruz, o colega de farda Braga Netto não terá como agir fora da Constituição.

“Eu não o conheço tão bem assim, conheço superficialmente, tive pouco contato. Mas ele não tem nenhuma outra opção a não ser respeitar a lei e a Constituição. Não existe outra opção”, disse Santos Cruz à Folha em entrevista nesta terça-feira (30).

Santos Cruz foi demitido da Secretaria de Governo de Bolsonaro em junho de 2019, após ele se envolver em seguidas crises com os filhos do presidente, além de um embate com o escritor Olavo de Carvalho, guru da família presidencial.

O militar disse não ver qualquer chance de as Forças Armadas embarcarem em uma aventura golpista.

“A sociedade vai ver que isso daí é conversa fiada, que não tem golpe nenhum nem vai ter. Até reforça o prestígio das Forças Armadas junto à sociedade, porque ela vai ver que é gente que está explorando o discurso tentando iludir a população ou amedrontar, intimidar. Ela vai ver que não vai acontecer nada, que amanhã o dia vai raiar, depois de amanhã, no outro dia, e que a gente vai ter que resolver os problemas e que não vai ter golpe militar nenhum.”

Segundo ele, “o risco disso é zero”. “A formação desses três comandantes que saíram hoje é a mesma formação dos três que vão entrar. Tem uma vida cultural aí que não vai ser alterada, subvertida por qualquer proposta de aventura ou de alguma coisa que seja fora da lei. Não existe essa possibilidade.”

Edson Leal Pujol (Exército), Ilques Barbosa (Marinha) e Antônio Carlos Bermudez (Aeronáutica) colocaram seus cargos à disposição na terça-feira. Seus substitutos ainda não foram anunciados.

Para Santos Cruz, a decisão de fazer as trocas se deve a “capricho, birra, comportamento sem nexo” de Bolsonaro. O uso de expressões como “meu Exército”, que o presidente usou ao falar com apoiadores, representam, para o general da reserva, “infantilidade” do chefe do Executivo.

“Os comandantes de Forças Armadas não são políticos. Eles são pessoas de dentro da própria instituição que chegaram a comandante. Passaram 45 anos lá dentro sendo selecionados, avaliados”, diz o ex-ministro.

“E quando chega na hora de ir para casa, de ir embora, deixar o serviço ativo, não é dessa forma. Isso é desrespeito, falta de consideração com a instituição, com as pessoas e com as funções que elas ocupam”, afirmou.

Santos Cruz também diz não enxergar risco de politização das Forças Armadas a partir de agora. Para ele, “as Forças Armadas não são instrumento de intimidação política ou ferramenta de jogo de poder”.

“Isso aí não é aceito pelas Forças Armadas nem pode ser aceito pela sociedade. A sociedade não pode aceitar que as Forças Armadas sejam tratadas desta forma”, afirmou.

Uma das queixas de Bolsonaro em relação aos quadros mandados embora era a falta de apoio público a manifestações suas.
“[Para] manifestação pública de apoio ao que ele [Bolsonaro] fala, ele tem os seguidores dele. Isso não quer dizer que tenha que ser levado em consideração”, afirmou Santos Cruz.

Bolsonaro queria, por exemplo, apoio em suas críticas a prefeitos e governadores que adotam medidas restritivas para tentar conter a disseminação do novo coronavírus. “Tem coisas que são só discurso, que não têm a mínima praticidade”, afirmou.

“Outra coisa é o relacionamento da União com os estados ou do presidente com os governadores. Isso é uma relação política, de liderança política ou de acordo político, conversa, diálogo. E não usar Exército como opção. Você tem que ter capacidade de liderar, capacidade de diálogo com seu oponente. A partir da hora que não existe isso, você não vai resolver na força este tipo de desavença”, disse Carlos Alberto dos Santos Cruz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: BNews, 01/04/2021

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