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Putin e Trump selam reaproximações entre Rússia e EUA, mas sem acordo sobre a Ucrânia

Após quase três horas de conversa entre os presidentes dos Estados UnidosDonald Trump, e da RússiaVladimir Putin, em uma base militar no Alasca, o líder russo afirmou que a reunião foi “construtiva”, e disse que o diálogo com os EUA está atrasado, e poderia ter “evitado o confronto”, referência à sua invasão da Ucrânia. Como esperado, não houve qualquer anúncio de um cessar-fogo, mas o líder americano disse que estão no caminho para obter um acordo, sem detalhar como, e sinalizou que a cúpula foi um passo importante para a reaproximação entre Washington e Moscou.

Nas declarações iniciais à imprensa, Putin elogiou o diálogo com Trump, e apontou que o conflito impõe custos de segurança a todo o mundo — ao falar da Ucrânia, disse que sempre considerou o país uma “nação irmã”. Também fez um alerta a Kiev e às nações europeias para que não façam nenhuma tentativa de, em sua visão “torpedear” avanços diplomáticos. Segundo ele, o diálogo entre a Rússia e os EUA “está atrasado”, e era necessário ter dialogado antes para evitar o confronto.

— A Rússia vê o desejo do governo Trump de ajudar a resolver a crise ucraniana — disse Putin, apontando que seu governo “tem seus próprios interesses”.

Trump afirmou, no começo de sua fala, que ligará para as lideranças na Europa e na Ucrânia para informar sobre o que foi discutido: segundo o presidente americano, foi feito um “enorme progresso” no encontro, sem dar detalhes sobre o que foi conversado. Ao final da rápida declaração, ele disse a Putin que “o veria em breve”, e o líder russo sugeriu, em inglês, que o novo encontro fosse em Moscou.

O encontro, o primeiro entre os dois desde o retorno do republicano à Casa Branca, foi um dos mais aguardados e escrutinados desde fevereiro de 2022, quando Moscou lançou contra a Ucrânia a maior invasão terrestre em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial. E, à sua forma, quebrou o isolamento que o presidente russo encontrava entre lideranças do Ocidente após o início da guerra.

Trump o recebeu de maneira efusiva, com direito a palmas na pista na base militar de Elmendorf-Richardson, no estado americano do Alasca. Depois, o convidou para o seu veículo oficial, “A Besta”, que os levou ao local onde ocorreu a reunião, bem mais longa do que seus encontros anteriores — dentro do carro não havia assessores ou tradutores. Antes de embarcarem, um jornalista perguntou a Putin se ele “vai parar de matar civis”. O líder russo apontou para o ouvido, como se não tivesse escutado, e não pediu que a pergunta fosse repetida.

Presidente dos EUA, Donald Trump, bate palmas para o presidente da Rússia, Vladimir Putin (fora da imagem), após chegada a base militar no Alasca — Foto: Andrew Harnik / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP
Presidente dos EUA, Donald Trump, bate palmas para o presidente da Rússia, Vladimir Putin (fora da imagem), após chegada a base militar no Alasca — Foto: Andrew Harnik / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP

Antes da reunião, Putin apostava que as chances de ser pressionado por um acordo imediato eram pequenas. Durante a semana, Trump disse que seu plano era “ouvir”, e talvez plantar as sementes para uma nova reunião, possivelmente com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, também à mesa — a ideia inicial da Casa Branca era um encontro trilateral já nesta sexta-feira. Pelo lado russo, as demandas eram bem mais claras.

A principal delas: a Rússia não abre mão de suas conquistas na Ucrânia, onde domina cerca de 20% do país, em um futuro acordo de paz. Hoje, boa parte dessas áreas já contam com a presença do Estado russo, especialmente a Crimeia, anexada em 2014, e cidades no leste, onde milícias pró-Moscou estão no controle efetivo há mais de uma década.

Desde o retorno à Presidência, em janeiro, o republicano já fez críticas ao líder russo, o chamando de “louco” após bombardeios contra cidades ucranianas, que deixaram dezenas de mortos — segundo um levantamento da rede britânica BBC, desde a eleição de Trump, em novembro do ano passado, a Rússia intensificou o ritmo de seus ataques aéreos. Em mais de uma ocasião, ameaçou impor novas sanções a Moscou, e chegou a dar um ultimato a Putin para que aceitasse um cessar-fogo incondicional. O prazo venceu na semana passada, e nenhuma nova medida foi anunciada.

Por outro lado, Trump conversou bem mais com Putin do que Biden, algo notado pelo russo logo na abertura da entrevista coletiva no Alasca. Dentro do tarifaço global, a Rússia sofreu uma alíquota de 10%, a mais baixa, embora a maior compradora de seu petróleo, a Índia, tenha recebido uma tarifa adicional de 25% por causa das importações do produto russo. E nos últimos dias, Trump falou abertamente em “troca de territórios”, o que poderia significar a concessão das áreas ocupadas pela Rússia na Ucrânia. Como quer o Kremlin.

Para Putin, evitar as sanções americanas, manter o diálogo com a Casa Branca e, como clímax, ser convidado para a primeira visita oficial aos EUA desde 2007, quando a Rússia ainda integrava o G7 (G8 à época), foi a prova de que está no caminho certo.

O encontro com o líder da maior potência militar do planeta, em solo americano, também era encarado como a chance de quebrar o isolamento imposto pelos países ocidentais. Com uma ordem internacional de prisão emitida pelo Tribunal Penal Internacional em 2023, as opções de viagem foram restritas a alguns países amigos, como ChinaBielorrússia e Coreia do Norte, o deixando de fora de cúpulas multilaterais, como do G20 e, mais recentemente, do Brics, no Brasil. A maioria dos chefes de Estado e governo europeus evita visitas a Moscou, preferindo prestar apoio a Zelensky em Kiev.

Somado a isso, Putin conseguiu convencer, mesmo que indiretamente, Trump a aceitar seu próprio tempo, no fuso horário de Moscou, e não correr em busca de um acordo de paz. Na quarta-feira, o americano conversou com lideranças da Europa e com Zelensky, prometendo que não tomaria decisões por conta própria — ainda a bordo do Força Aérea Um, nesta sexta-feira, ele disse à Fox News que “não é meu trabalho negociar um acordo sobre a Ucrânia, mas certamente posso preparar o cenário para a negociação de um acordo”, e que a paz só pode ser acordada entre Moscou e Kiev.

Horas antes dos dois líderes se sentarem frente a frente, o presidente ucraniano afirmou que a Rússia continua a bombardear suas cidades, que cabe a Putin encerrar o conflito, e que conta com uma “posição forte dos americanos” na mesa de negociações.

— Tudo dependerá disso, os russos levam em conta o poder americano. Se trata de poder — afirmou.

Fonte: O Globo, 15/08/2025

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