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Um ano da Overclean: Até onde chegou a operação que sacudiu a Bahia, expôs empresários e políticos e fez devassas em prefeituras

Operação Overclean completa nesta quarta-feira (10) um ano desde que foi deflagrada pela Polícia Federal, Controladoria-Geral da União, Ministério Público Federal e Receita Federal. O alvo inicial era uma organização criminosa acusada de fraudes em licitações, desvios de recursos públicos, estimados em R$ 1,4 bilhão, e lavagem de dinheiro. As ações se concentraram sobretudo na Bahia, mas também atingiram Tocantins, São Paulo, Minas Gerais e Goiás.

Logo na primeira fase, em dezembro de 2024, foram cumpridos 43 mandados de busca e apreensão e decretadas 17 prisões preventivas. Entre os presos estavam empresários como Alex Rezende Parente, apontado como líder do esquema e acusado de ordenar a destruição de provas com trituradoras, e José Marcos Moura, conhecido como “Rei do Lixo”, que teria articulado contratos de coleta de resíduos superfaturados. Também foram alvo servidores públicos e políticos locais, incluindo um vereador eleito em Salvador.

UM ANO DEPOIS

Apesar da dimensão da operação, a Polícia Federal ainda não apresentou nenhum relatório parcial sobre o caso, segundo advogados de defesa dos investigados ouvidos pelo colunista Lauro Jardim, de O Globo. A ausência de documentos oficiais tem sido criticada por juristas e políticos, que apontam para a dificuldade de acompanhar o andamento das investigações.

Divulgação / PF

O processo está sob relatoria do ministro Kássio Nunes Marques no Supremo Tribunal Federal (STF). Nos bastidores de Brasília, escritórios de advocacia seguem em alerta para novas fases, que podem ampliar ainda mais o alcance da operação.

CABEÇAS DO ESQUEMA

  • Alex Rezende Parente
    Apontado como o líder da organização criminosa, Alex Rezende Parente foi preso logo na primeira fase da Operação Overclean, em dezembro de 2024. Segundo os investigadores, ele não apenas coordenava contratos fraudulentos com prefeituras baianas, como também teria ordenado a destruição de provas utilizando trituradoras de documentos. O empresário é descrito como o cérebro do esquema, responsável por articular empresas de fachada e garantir que os desvios de recursos públicos fossem disfarçados em contratos superfaturados. Sua atuação direta no DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas) revelou sobrepreços milionários em obras de reservatórios e pavimentação.
  • José Marcos Moura, o “Rei do Lixo”
    Outro nome central é o de José Marcos Moura, conhecido como “Rei do Lixo”. Ele teria sido responsável por prospectar contratos de coleta de resíduos em diversas cidades baianas, sempre com valores inflados e serviços simulados. Moura é apontado como o articulador que cooptava servidores públicos com propinas e coordenava fraudes em licitações. Além disso, seu patrimônio chamou atenção: carros de luxo, imóveis e joias de altíssimo valor foram apreendidos em suas residências. A figura do “Rei do Lixo” simboliza como empresários locais se beneficiaram diretamente das emendas parlamentares destinadas a obras contra a seca e serviços urbanos.
  • Lucas Maciel Lobão Vieira
    Ex-coordenador do DNOCS na Bahia, Lucas Maciel Lobão Vieira aparece como peça-chave na engrenagem administrativa do esquema. Ele teria gerenciado contratos superfaturados, incluindo sobrepreço de R$ 192 milhões em obras de reservatórios, e atuava nos bastidores para liberar pagamentos a empresas investigadas, como a Allpha Pavimentações. Vieira é descrito como o elo entre o núcleo empresarial e o setor público, garantindo que os desvios fossem operacionalizados sem levantar suspeitas imediatas.
  • Mauro Moura
    Ligado a José Marcos Moura, Mauro Moura também figura entre os cabeças da operação. Ele teria coordenado fraudes em Salvador, Lauro de Freitas e Vitória da Conquista, atuando como braço operacional do esquema. Sua função era garantir que contratos fraudulentos fossem executados em diferentes municípios, ampliando o alcance da organização criminosa. Mauro aparece como responsável por manter a rede ativa e expandir os negócios ilícitos para além da capital baiana.

Divulgação / PF

PREFEITURAS E CONTRATOS SUPERFATURADOS
Empresas baianas como Qualymulti Serviços Ltda, Allpha Pavimentações, Rezende Serviços Administrativos Ltda e Construtora Impacto foram investigadas por uso de laranjas e simulação de serviços fictícios em prefeituras. Em contratos com o DNOCS, os investigadores identificaram superfaturamento de pelo menos R$ 8 milhões apenas na fase inicial.

Ao longo de 2025, a operação avançou por cidades como Lauro de Freitas, Vitória da Conquista, Camaçari, Boquira, Ibipitanga, Paratinga, Amargosa, Riacho de Santana, Wenceslau Guimarães, Campo Formoso e Mata de São João. Foram afastados prefeitos, apreendidos valores em espécie, como os R$ 3,2 milhões encontrados em gavetas na casa de um ex-prefeito, e bloqueados bens de luxo, incluindo carros, aeronaves e joias avaliadas em até R$ 800 mil.

A Overclean atingiu nomes de peso da política baiana. Entre os investigados estão os deputados federais Félix Mendonça Júnior (PDT), acusado de operar financeiramente desvios de emendas, Elmar Nascimento (União Brasil) e Junior Barreto (União Brasil), além de prefeitos como Alan Machado França (PSB, Boquira), Humberto Oliveira (PT, Ibipitanga) e Marcelo Carneiro (PT, Paratinga), todos afastados.

Em fases posteriores, buscas também miraram imóveis de luxo em Salvador e cidades do interior, expondo supostos esquemas de propina ligados a obras de pavimentação e saneamento financiadas por emendas parlamentares.

NA CAPITAL
O ex-prefeito de Salvador e atual líder político, ACM Neto, apareceu em conversas e documentos como figura de influência em articulações de contratos e emendas, embora não tenha sido alvo direto de mandados.

  • Thiago Dantas, secretário de Educação de Salvador

A Operação Overclean atingiu a gestão municipal da capital baiana ao citar o nome do atual secretário de Educação de Salvador, Thiago Dantas. Segundo a Polícia Federal, contratos da pasta foram usados em um esquema de fraude de licitação que teria desviado cerca de R$ 67 milhões.

Segundo a PF, empresas ligadas ao núcleo da quadrilha se beneficiaram de sobrepreços e serviços simulados, com participação de servidores e empresários investigados.

  • Bruno Barral, ex-secretário de Salvador e alvo em Minas

Outro nome ligado à capital baiana que apareceu na Overclean foi o do ex-secretário de Educação de Salvador, Bruno Barral. Ele havia assumido a mesma pasta em Belo Horizonte, mas acabou alvo da 3ª fase da operação, em abril de 2025.

  • O caso de Francisquinho
  • Entre os episódios mais marcantes da Operação Overclean está a prisão do vereador Francisco Manoel do Nascimento Neto, conhecido como “Francisquinho”. Ele foi alvo logo na primeira fase da operação, em dezembro de 2024, quando a Polícia Federal cumpriu mandados em diversos municípios baianos.

Durante a ação, Francisquinho tentou se livrar de parte do dinheiro ilícito. Investigadores relataram que o parlamentar jogou notas pela janela de sua residência e escondia valores dentro do sapato. A cena virou símbolo da operação, mostrando de forma explícita como os recursos desviados circulavam entre políticos locais.

Desde a deflagração, foram apreendidos R$ 3,4 milhões em espécie na fase inicial, além de 23 carros de luxo, três barcos, três aeronaves, seis imóveis de alto padrão e dezenas de relógios de grife. Bloqueios judiciais somaram R$ 162 milhões na primeira fase e mais R$ 85,7 milhões na quinta fase.

No total, até outubro de 2025, a operação cumpriu mais de 130 mandados na Bahia, com pelo menos 20 prisões preventivas e dezenas de medidas cautelares, como tornozeleiras eletrônicas e afastamentos de servidores.

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: por Redação Bnews,

redacao@bnews.com.br

Publicado em 10/12/2025, às 15h44 – Atualizado às 15h45

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