Era fim da tarde de quinta quando eu, Leo e o pai de Leo encontramos Ricardo. Desde 2021, o professor de matemática dá aulas online ao meu filho e a gente já considerava nosso amigo. Agora a amizade está selada. Quase 22h e acabou a farra no food truck que fica numa praça de Ipanema. Leo está com o pai, que mora aqui no Rio, por esses dias. Me despedi de todo mundo e decidi esticar a noite de um jeito que também adoro: completamente sozinha.
O nosso programa (meu comigo mesma) seria na Lapa. Concordamos, eu e eu. Centrão, samba, andar anônima no meio de um monte de gente. Delícia. Horas antes, eu havia me inaugurado na Linha 4, trajeto Leblon/Ipanema, do metrô. Agora, era só andar pela Joana Angélica até a estação Nossa Senhora da Paz, pegar o trem, desembarcar ali na Cinelândia e ser feliz. Só que o metrô fecha às 23h, lembrei em seguida.
Tenho medo de táxi e Uber, a depender da situação. Queria beber mais um pouco e achei prudente não me trancar em carro com um homem desconhecido, principalmente meio “altinha”. Não confio e motivos não faltam. Então, voltei pro Leblon, onde moram Cláudio, Fernanda e Luca, os primos queridos que, há décadas, me recebem aqui. Uma vez no Leblon, fui fazer minha farra a pé. Melhor assim. Muitos chopes, papos com desconhecidos e um segundo jantar depois, cheguei em casa. Sã, salva e bem alegrinha. Zero momentos de medo, zero tensão.
Não, este texto não é sobre uma farra. A única coisa que importa, aqui, é dizer que eu estava sozinha, de noite, na rua, numa metrópole. Informo que usando bolsa, com celular e, em vários momentos, fones de ouvido. Tá ligado que essa metrópole é o Rio de Janeiro? Lembra que o Rio de Janeiro ocupou, durante muitos anos, pelo menos em nosso imaginário, o lugar de “cidade mais violenta do Brasil”? É muito bom ter memória e ver o tempo passar.
No início dos 2000, quando resolvi vir morar aqui por um tempo, mainha e painho quase infartaram. Não sem razão, claro. Enquanto a Bahia vivia dentro da “normalidade”, isso aqui era barril dobrado. Passei por arrastões, no plural. Nesse mesmo Leblon de onde escrevo agora. Já tive que dormir no trabalho por causa de túnel fechado pelo tráfico e ouvi de um namoradinho da época (que depois virou cantor famoso, porém mais não falo): “não relaxe não, Flavinha, que, do nada, aparecem cinco caras com metralhadora e começam a atirar”.
(Esse mesmo namorado, nessa época, abordado por um ladrão, em Salvador, botou o sujeito pra correr aos gritos de “aqui é Rio de Janeiro, Favela da Maré, sai fora, otário!”. O que eu sei é que a hierarquia foi respeitada. Bandido – bandido MESMO – tinha era pro lado de cá.)
Amigos baianos chegavam aqui com a ingenuidade de quem vem da zona rural para a cidade grande. Eram instruídos sobre como se proteger e por onde andar. Era comum que gente nem tão rica blindasse o carro. Um conhecido, executivo de grande empresa, andava de blindado e motorista com treinamento anti-sequestro. Para o desespero de Mainha, o Rio só vivia, pelos piores motivos, no Jornal Nacional. Porém 20 anos depois, as coisas estão bem mudadas. Pelo menos em comparação à Bahia e, como se diz, “no asfalto”.
(Sim, é um recorte elitista. Por mais que me interesse e me preocupe com o todo, nunca morei em favela, não conheço, de fato, a realidade. A violência, nesses espaços, se desenha de um modo que nunca vivenciei, com específicas esquinas e subjetividades. Apesar de conhecer histórias e relatos, de ter amigos que moram em “comunidades”, eu não vivo lá. Minha experiência real é no interior da Bahia e em áreas de classe média ou média alta nas grandes cidades. De forma que não vou tirar onda de “periférica” nem desobedecer o negócio do “lugar de fala”. É aqui do meu lugar, também legítimo, que posso comparar e assim o faço.)
A onda de violência que Salvador vive, desde o fim de semana passado, é apenas o ponto mais alto (até aqui) do que vem se estabelecendo enquanto providências não são tomadas. A “guerra de facções” assombra a cidade porque façcões, expulsas de outras praças, puderam se estabilizar na Bahia, com facilidade. Enquanto perdiam espaço no Sudeste, lançavam suas sementes mais pra cima. Todo mundo sabia, todo mundo viu, mas ninguém fez nada. Germinaram, se fortaleceram e se firmaram. Ao longo dos anos, a Bahia – todinha – vem ficando muito violenta e já vai bem longe o tempo em que era a tal “terra da felicidade”.
Ontem, enquanto subia a pedra do Arpoador, lembrei que há muito tempo não assisto ao pôr-do-sol no Porto da Barra. Clima pesou lá. Há algumas semanas havia um corpo ali, dentro de uma mala. Há assassinatos na areia da praia. Perambular pelo Rio Vermelho não é mais um esporte saudável. Mataram um cara na Praça de Dinha, esfaquearam outro num assalto. Não se anda mais a pé, de noite, nem pelo Corredor da Vitória, nosso IPTU mais caro. Quando áreas nobres perdem a paz é “a água bateu na bunda” que fala. No Rio, quando bateu, reagiram e as coisas mudaram. Nesse sentido, a bala que atingiu um apartamento na Graça – e, felizmente, não matou ninguém – pode vir a ser, exatamente, a “bala de prata”.
Agora, pode ser que providências sejam tomadas. Dizem que o poder público se mexe quando as coisas chegam nesse estágio. Tomara. Mesmo assim, não espere que seja rápido. Uma vez estabelecida, a violência generalizada piora muito até melhorar. Vamos nos acostumar com ruas vazias às 20h, com usar carros para pequenos percursos, com blindagem de carros e casas, com evitar ônibus a todo custo. Vamos mapear as áreas da cidade que “fecham” quando as facções começam a brigar. Vamos parar de confiar no Waze que não sabe do risco de execução, se entrarmos em alguns lugares. É isso. Novo normal, nova realidade. Paciência, são os fatos.
Teremos tempo para, passado o susto inicial, degustar algumas doses de humor, que isso também salva. Também para acompanhar a novela do crime organizado. Todos saberemos os nomes dos donos dos picos e seus métodos. Alguns serão mais sanguinários, outros mais “legais”. Conheceremos, pelas matérias da tevê, os interiores luxuosos de suas casas sem rebocos. Livros serão escritos, talvez filmes sejam rodados. Personagens se destacarão dos dois lados. Conheceremos novos cortes de cabelos, estilos e gírias. Modos e costumes vão transbordar. Soft power, né? Você sabe do que se trata.
Daqui, observo com olhos de quem já viu tudo isso, em outro cenário. Termino este texto pensando que vou dar um último rolê, antes de voltar pra casa. Convidei meus primos para a retribuição da visita, porém já avisando sobre as ações das facções, do que aconteceu nesta semana, da situação que vão encontrar. Eles ficaram impressionados. Dança das cadeiras, ironia do destino. O jogo mudou, quem diria? Chegou a hora de carioca ter medo da Bahia.