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‘Ali era um massacre’: Ex-internos denunciam tortura e fome em centro terapêutico na Bahia

Nas redes sociais um belo cenário, uma equipe de qualidade e uma possibilidade real de terapia para alcoólatras, dependentes químicos e pessoas com necessidades especiais, mas fora da publicidade, o cenário é bem diferente. O Centro Terapêutico Família Camaçari (CT Família), localizado no distrito de Monte Gordo, é alvo de uma série de investigações policiais por crimes graves que contrastam com a imagem de “resort” divulgada em suas redes sociais.

Centro Terapêutico em Camaçari é alvo de inquéritos por homicídio, maus-tratos e mais por Reprodução

A investigação mais recente da 4ª Delegacia de Homicídios (DH/Camaçari) apura as circunstâncias da morte de Aline da Silva Fernandes, de 43 anos, ocorrida em março deste ano. Segundo a nota oficial da Polícia Civil, a unidade também investiga um segundo óbito ocorrido ainda nas dependências do centro. Ao todo, dos seis inquéritos instaurados pela 33ª DT/Monte Gordo, cinco já foram remetidos ao Judiciário, resultando em três indiciamentos até o momento.

A instituição se promove como um ambiente adequado para tratamento terapêutico, psicossocial e até oferece “Jet terapia” com motos aquáticas e estrutura de lazer. No entanto, registros das instalações obtidos pela reportagem revelam um cenário de abandono e insalubridade. As imagens mostram colchões rasgados, banheiros sujos, cozinhas em condições precárias com utensílios encardidos e o mais sério, pacientes presos em quartos com falta de higiene básica.

Relatos de ex-funcionários e ex-internos reforçam as denúncias de violência sistêmica. “Ali não é uma clínica, ali era um massacre”, afirmou uma ex-funcionária que prefere não se identificar. “Eu saí de lá, por falta de pagamento, fiquei ali por apenas dois meses. Tem gente que passa fome lá. Você vê os meninos pedindo socorro ‘Tia me ajuda, me ajuda’, não tem como esquecer”, afirma.

O ex-interno George dos Santos descreveu a prática de trabalhos forçados para evitar agressões. “Fui espancado por um dos coordenadores, desmaiei e fui dopado”, relatou o ex-funcionário e ex-interno, que afirma sofrer sequelas das agressões: “Tive que ir para a UPA, até hoje sinto dores de cabeça e não consigo dormir direito”

Denúncias no Instagram reforçam o cenário de horror na unidade. Um familiar relatou ter encontrado o irmão autista trancado em um quarto insalubre, entre urina e fraldas: “Era cuidado por outro paciente sem preparo e saiu de lá em choque”. Já outro relato, em entrevista para o CORREIO*, uma mãe, que preferiu não se identifcar, detalha o desespero do filho: “Me ligou implorando para sair; eles o ameaçavam e o trancavam em um quarto”.

Um levantamento na plataforma do Processo Judicial Eletrônico (PJe) do TJ-BA revelou que o CNPJ do centro está atrelado a crimes contra a liberdade pessoal, dignidade sexual e até processos de despejo por falta de pagamento. O Ministério Público da Bahia (MP-BA) informou que os casos tramitam sob sigilo de Justiça. O Ministério Público do Trabalho (MPT) também foi acionado para investigar as denúncias de exploração laboral, mas ainda não se manifestou.

A defesa jurídica do Centro Terapêutico Família foi procurada pela reportagem para comentar as acusações de tortura e as investigações de homicídio, mas não retornou até o lançamento desta matéria. O espaço permanece aberto para manifestações.

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: por Nauan Sacramento/Correio da Bahia,

Publicado em 17 de abril de 2026 às 21:05
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