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Pacientes com câncer enfrentam até 5h de espera em hospital referência em Salvador

Doentes cruzam cidades de madrugada, encaram filas longas e atrasos no atendimento no Aristides Maltez

Um ônibus com identificação da Secretaria da Saúde de Cícero Dantas, cidade com 32 mil habitantes e distante pouco mais de 300 quilômetros de Salvador, atrapalha o trânsito já caótico da Avenida Dom João VI, no bairro de Brotas. O veículo permanece durante um longo tempo estacionado em frente ao Hospital Aristides Maltez (HAM) obrigando os carros que vêm no mesmo sentido a se espremerem na contramão para poderem trafegar.

Receber pacientes e acompanhantes dos quatro cantos do estado é a rotina do hospital especializado no tratamento do câncer e principal unidade de atendimento oncológico à população carente na Bahia. Criado no dia dois de fevereiro de 1952, data recheada de simbolismo, o HAM atende diariamente 3500 pacientes vindos dos 417 municípios baianos, além de outros estados, exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo dados disponíveis no site da unidade, entre janeiro e junho de 2025, foram realizadas 4,823 cirurgias, 6,360 internações, 94,680 consultas e 2,488,756 procedimentos. Os números impressionam tanto quanto a dedicação dos profissionais que trabalham no espaço, sejam eles médicos, técnicos, enfermeiros ou pessoal de apoio. Os cânceres de pele, tireóide, mama, colo de útero, estômago, esôfago e próstata representam cerca de 70% dos casos tratados no HAM, que realiza todas as etapas do tratamento.

Tanta demanda tem seu preço. Esse boleto é pago pelos pacientes não com PIX, dinheiro ou débito, mas em horas de espera, viagens longas e geralmente cansativas e, nos casos mais agudos, falta de atendimento devido a problemas com equipamentos. Há também a conta monetária paga Liga Bahiana Contra o Câncer (LBCC), instituição filantrópica que administra a unidade.

“Todo ano tem um rombo. Em 2023, foram R$24 milhões, ano passado, R$25 milhões e, este ano [2025], está batendo na casa dos R$17 milhões”, disse o superintendente da LBCC, Humberto Luciano Souza, que há 32 anos se dedica à causa.

Para ele, o trabalho do HAM é fundamental para amenizar a situação caótica dos pacientes oncológicos na Bahia, sobretudo em relação a determinados diagnósticos como leucemia, linfomas e mielomas.

Fé, ciência e esperança

Na entrada do prédio tombado pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) onde funciona o HAM estão a imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, e do professor Aristides Maltez, fundador da Liga Bahiana Contra o Câncer e que dá nome à instituição.

Cunhada em uma placa, uma das célebres frases do médico acompanha uma luz que sempre brilha: “Esta é a lâmpada da caridade que jamais se apagará no coração dos meus seguidores”. A reunião desses signos é muito simbólica. Afinal de contas, fé, ciência e esperança são os fios condutores que movimentam toda aquela estrutura.

O aposentado José Evangelista, 77 anos, é um dos milhares de baianos vindos do interior que encontrou no Aristides uma chance de cura. Diagnosticado com câncer de próstata, precisou ser submetido a 20 sessões de radioterapia. Ele é morador de Nova Soure, município localizado a 246 km da capital, mas tem a sorte de ter parentes em Camaçari que se dispuseram a hospedá-lo durante o tratamento.

“Tem carro da prefeitura de Nova Soure que vem pra cá. Mas como o médico falou que meu tratamento demoraria vinte dias, precisei ficar em um lugar mais perto”, contou o paciente enquanto esperava um parente que o levaria de volta à casa da cunhada em Camaçari.

Seu José chegou a ir para São Paulo quando recebeu o diagnóstico com o objetivo de fazer o tratamento cirúrgico. Após a realização dos exames, a cirurgia não foi indicada. Os médicos que o atenderam, em São Paulo, recomendaram que as sessões de radioterapia fossem feitas lá.

Porém, por se tratar de um processo longo, preferiu voltar à Bahia e seguir o tratamento no HAM.

Quando conversou com a equipe do CORREIO, seu José já havia feito oito das 20 sessões recomendadas. Apesar do progresso, um problema na máquina que aplica a medicação atrasou o processo em dois dias. “Os médicos me avisaram que eu só poderia vir na quarta, porque segunda e terça a máquina estava quebrada”, lamentou.

Mesmo com esse percalço, fez questão de reconhecer o bom atendimento prestado. “O tratamento aqui é ótimo. Os médicos explicam tudo muito bem direitinho e são atenciosos”.

Cada minuto é crucial

Dois dias a mais, quando cada minuto conta, faz muita diferença. O câncer é uma das principais causas de morte do país, com uma média de 698 óbitos diários, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Em relação aos tumores de próstata, a Sociedade Brasileira de Urologia registrou 17.587 mortes em 2024.

Para além do risco de metástase e outros possíveis agravamentos, o atraso no tratamento provoca um desgaste emocional que fica claro nas conversas com pacientes e acompanhantes que, diariamente, precisam se dirigir até o hospital em uma rotina dura e cansativa.

Seu José, por exemplo, saiu de Camaçari por volta das 11h para chegar ao Aristides ao meio-dia e fazer radioterapia no início da tarde. Nessas horas, poder contar com o apoio de parentes próximos é muito importante para atender demandas simples, como jogar conversa fora e passar o tempo.

Na sala onde realiza o tratamento, ele encontra gente de diversos municípios baianos, como Serrinha, Alagoinhas, Olindina e Feira de Santana. Seu José acredita que ajudaria muito a construção de novos hospitais em outros pontos do estado. “O governo ainda não pensou nessa possibilidade. Isso é um negócio que não pode ficar demorando porque é uma doença muito perigosa”.

Quem também corre contra o tempo e pelas estradas é a paciente Eliete e o seu filho, Rogério Cardoso, que a acompanha nas viagens entre Jaguaripe e Salvador. Eliete estava concluindo um tratamento de câncer no crânio iniciado no Aristides Maltez em março de 2025, antes disso, foi acompanhada no Hospital das Clínicas.

Rogério lembra que no início do tratamento o deslocamento era feito por conta própria. A prefeitura de Jaguaripe, algum tempo depois, disponibilizou ambulâncias para transportar os pacientes. No entanto, segundo Rogério, desde outubro de 2025, o município conta apenas com uma van que faz o transporte de todos os moradores da cidade que utilizam os serviços do HAM e outras unidades de saúde da capital.

“A gente vem numa van com outros pacientes para os diversos hospitais daqui da cidade e fica esperando até todo mundo ser liberado para retornar para casa”, descreveu.

No início do tratamento, dona Eliete fez 33 sessões diárias de radioterapia. Ela precisou ficar na casa de parentes que vivem em Salvador durante esse período. Em seguida, foram duas sessões quinzenais de quimioterapia e outras seis aplicações semanais.

Os dias de atendimento no Aristides começam muito antes do Sol nascer. Rogério e a mãe saem de casa às duas da madrugada e chegam em Salvador por volta das seis da manhã. Os atendimentos estão previstos para ter início às sete. No entanto, devido ao grande número de pacientes, a espera é algo inevitável. Nesse dia, dona Eliete só foi atendida ao meio-dia.

Rogério é mais um que acredita que um hospital fora da capital ajudaria muito. “Se tivéssemos, por exemplo, um hospital na região de Feira de Santana seria mais viável para as pessoas de lá e iria desafogar um pouco mais o Aristides, que não ia receber uma demanda tão grande”, opinou.

Uma paciente diagnosticada com câncer no útero, que prefere não se identificar, precisou recorrer ao Aristides Maltez para completar o tratamento iniciado em Vitória da Conquista. No hospital de Conquista, foram seis sessões de quimioterapia e outras 28 de radioterapia. Ao final desse ciclo, ela foi informada que precisaria realizar outras três sessões de braquiterapia e que o procedimento só poderia ser feito no HAM.

Ela conta que levou cinco dias para agendar a triagem. Um ruído de comunicação fez com que ela viesse a Salvador tentar agendar pessoalmente o serviço. Porém, a viagem foi perdida, pois só descobriu que a marcação teria que ser feita por telefone ao chegar no hospital.

A espera perdurou na primeira sessão, quando aguardou por cinco horas para ser atendida. “O procedimento não levou dez minutos, mas eram muitos pacientes. Eu saí de lá no primeiro dia muito abatida quando vi aquela situação. Fico pensando naquelas pessoas que vêm de longe, que já estão debilitadas e muitas vezes não têm condições sequer de comprar um lanche”, relembra.

Os atendimentos aconteceram em três sextas-feiras consecutivas e, felizmente, ela contou com o suporte de familiares que moram em Salvador e puderam hospedá-la nessas semanas. Ela ressalta a atenção da equipe médica e a qualidade do equipamento utilizado. “Os técnicos são extremamente qualificados e usaram um equipamento importado da Alemanha”, descreveu.

65 novos pacientes por dia

Todos os dias, de segunda a sexta-feira, são matriculados 65 novos pacientes com diagnóstico no HAM. Dessas 65 vagas, 10 são reservadas à regulação municipal e as outras 55 destinadas à marcação direta através do telefone (71) 3357-6900. Ano passado, através desse número, foram feitas 13.710 matrículas.

Após o atendimento telefônico, a triagem acontece após 48 horas. A depender do resultado da triagem e demanda por especialidade, o atendimento é feito no mesmo dia ou em até duas semanas.

A outra porta de entrada é através da regulação estadual, com pacientes que estão internados em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e hospitais do interior já com diagnóstico. “A regulação estadual possui 16 leitos no Aristides Maltez. Conforme as vagas vão surgindo, novos pacientes vão sendo encaminhados”, explicou Humberto Souza, superintendente da LBCC.

Sobre a demora para conseguir agendar a triagem, Humberto conta que o serviço abre às 7h e, por conta da demanda, às 8h30 as vagas já foram ocupadas. Isso porque o interesse do hospital é marcar a triagem com até 48 horas. Afinal de contas, caso esse intervalo seja muito longo, o tempo para iniciar o tratamento também vai aumentar.

“O paciente consegue a triagem cerca de 48 horas após o atendimento telefônico. Aí a primeira consulta está marcada para, por exemplo, dali a 15 dias. Caso aquele paciente precise de uma UTI, essa vaga demora mais um pouco, mas caso ele não precise, a cirurgia é feita em cerca de 30 a 45 dias”, detalhou.

Segundo dados do Ministério da Saúde, o HAM é o hospital que mais faz procedimentos de quimioterapia no Brasil, e o segundo em radioterapia e cirurgia oncológica pelo SUS. No ano passado, foram 56 mil ciclos de quimioterapia. Em breve, esse número deve aumentar cerca de 30% e ficar próximo dos 70 mil ciclos anualmente.

“A solução é ter outro hospital em outro canto, ou mesmo aqui em Salvador. Para você ter uma ideia, antes tínhamos três cirurgiões de cabeça e pescoço, hoje temos 10 e cada um deles tem fila de pacientes de 30 dias. É uma loucura”, desabafou.

O superintendente revela que o hospital recebeu uma proposta para colocar um robô cirúrgico na unidade. No entanto, devido ao alto custo desse procedimento, não foi possível a instalação do equipamento.

“Uma cirurgia de robô, em média, custa R$35 mil, e o SUS repassa cinco mil. Isso hoje é inviável para nós. Teremos o robô assim que acharmos uma linha de financiamento”, disse.

Outras demandas

Para além do atendimento aos pacientes oncológicos, o HAM é ainda responsável por outras demandas de saúde no Estado como, por exemplo, captar córneas para transplantes. Hoje, o hospital é o maior captador da Bahia.

Outra demanda é a irradiação de sangue, ação necessária em transfusões que vão atender pacientes oncológicos, recém-nascidos, imunossuprimidos e transplantados. Para isso, é feita uma rápida radioterapia nesse sangue.

“Não existia um irradiador de sangue específico para a Bahia. Nós compramos um para usar nos nossos pacientes e fizemos uma parceria com o Hemoba. Hoje, nós irradiamos o sangue de todo o estado”, disse Humberto.

Para cada irradiação, o SUS paga R$13. Esse valor está longe de representar qualquer lucro para a entidade, uma vez que só o aparelho custou R$1,1 milhão.

Transplante de medula

Para 2026, o hospital pretende instalar uma central de transplante de medula óssea. Isso porque, o volume de transplante é muito baixo e os próprios pacientes do HAM precisam ser encaminhados para o interior de São Paulo.

Além disso, há uma expectativa de ampliar o Pronto Atendimento. Uma campanha de arrecadação será lançada e a ideia é que 600 mil pessoas doem, cada uma, R$20 para custear a obra no valor de R$13 milhões.

Também se pretende instalar um serviço de pesquisa que deve funcionar em parceria com institutos que desenvolvem novos medicamentos para o tratamento de doenças oncológicas.

 

 

 

 

 

 

Fonte: por Saulo Miguez/Correio da Bahia,

Publicado em 25 de abril de 2026 às 05:00
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