BAHIAGERALNOTÍCIAS

Queima de espadas e os efeitos de 15 anos de uma proibição fracassada

Você pode ter medo, não gostar e achar ridículo. Direito seu. Do mesmo modo, eu tenho o direito de achar queima de espadas uma das coisas mais lindas do mundo. É ancestralidade que chama e isso não é força de expressão. Essa é uma tradição centenária e um referencial identitário profundo em cidades baianas como Cruz das Almas, Senhor do Bonfim, Muritiba, Governador Mangabeira e Sapeaçu. Você gostando ou não. Só que o que deveria ser visto como um patrimônio, foi transformado em crime em 2011 (Cruz das Almas) e em todo o estado em 2017, num processo conduzido sem debate público. No entanto, mesmo ilegal, a prática nunca cessou. O único efeito objetivo é que a clandestinidade transformou o “balé de fogo” em um cenário infinitamente mais perigoso. Explico.

A tradição das espadas
Guerra de espadas por Reprodução
Guerra de espadas por Reprodução

A criminalização também provocou um êxodo de fabricantes sérios, detentores de um conhecimento técnico centenário. Muitos desses profissionais se retiraram da prática por medo de prisões e humilhações públicas. Esse vácuo de conhecimento foi preenchido por jovens menos experientes, que muitas vezes fabricam artefatos sem o rigor necessário. Fazer espadas é uma arte extremamente delicada, uma cultura passada de forma oral e prática, de geração para geração. Não há um manual escrito, uma receita padrão. Com isso, a qualidade despencou, o que também significa perigo. Espada não é pra explodir, por exemplo. Nem pra subir como se fosse foguete, atingindo telhados a metros de distância. Depois da proibição, esses defeitos – que eram raros – ficaram muito comuns.

Outra coisa: como as apreensões de materiais e produtos prontos, no período que antecede o São João, são frequentes, os espadeiros passaram a fabricar novas espadas às pressas e em locais improvisados. Observe que uma espada bem feita exige mais de 20 etapas e semanas de preparo. Além da inexperiência, a produção apressada também gera artefatos instáveis, muito mais perigosos do que os que são fabricados com tranquilidade, sob o tempo da tradição. Esse perigo não afeta apenas quem acende a espada, mas qualquer pessoa que passe por perto, por exemplo, durante uma explosão.

(Eu nunca havia brincado com espadas sem o traje apropriado até que elas foram proibidas, nós deixamos de ter em casa e a possibilidade de entrar numa queima passou a ser uma questão de sorte. Ninguém sai de casa vestido para uma possibilidade remota. Porém, se a oportunidade surge, tô pra ver um espadeiro que vai desperdiçar.)

Junto com a flexibilização dos EPIs, todo um código de conduta também foi flexibilizado. Quando você vê esses vídeos de gente botando espada na boca, na cabeça, deitando no chão com espadas… é uma quebra completa dos códigos que sempre orientaram a prática. Era raro ver gente se comportando desse jeito irresponsável. Quando a gente via, se afastava. O jeito de segurar o artefato, o momento de soltar, há toda uma coreografia, uma técnica que se aprende ao longo da vida. Isso inclui até de que maneira se locomover no meio da queima. Fato é que, seguindo o protocolo, nunca, entre os meus, houve qualquer acidente grave.

Historicamente, a espada é uma evolução técnica do antigo busca-pé, redesenhada justamente para ser menos perigosa, eliminando a explosão final e permitindo a interação lúdica, aquela “dança” no fogo, a proximidade com aquele “rabo” de luz e com aquele som que, pra nós, são mágicos. O artefato, feito de bambu, pólvora, barro e limalha, é fruto de um saber que remonta a 1930. Com o uso de EPIs e o comportamento adequado, os riscos ainda existem, mas são bastante minimizados. “Mas quem não gosta não quer correr risco nenhum”, você pensa já um pouco irritado. Justíssimo! E pra isso também tem solução.

O exemplo de Senhor do Bonfim mostra que o caminho é a regulamentação, não o teatro patético da proibição. Em 2025, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) histórico uniu o Ministério Público, a Associação de Espadeiros e forças de segurança para legalizar a prática. O acordo prevê a criação do “Espadódromo”, um local isolado com distanciamento rígido de áreas sensíveis, garantindo que o direito à manifestação cultural não fira o direito à paz de quem não quer participar. Não é perfeito? Pois melhora ainda mais.

Aí você pensa “mas vai deslocar esses profissionais todos só para o prazer de alguns?”. Preconceito seu, né? Porque Carnaval, Fórmula 1, campeonato de surfe… tudo isso mobiliza o Estado pelo prazer de alguns. “Mas esses eventos geram receitam pro município”, você rebate. Oxe, e por que as espadas não gerariam?

Conheça o exemplo de Estância, em Sergipe. Nossos vizinhos provam que a organização profissional transforma a queima em um espetáculo que movimenta a economia e o turismo.

Lá, dezenas de fabricantes especializados manuseiam toneladas de pólvora com maestria e milhares de espadeiros participam da queima, provando que o risco da espada – assim como tantos outros – pode ser gerenciado. O modelo sergipano reforça que a queima de espadas, quando respeitada e organizada, é um belíssimo espetáculo e não um caso de polícia.

Está na hora de abandonar uma estratégia que fracassou. Quinze anos depois, a queima de espadas continua existindo por todo o Recôncavo. A diferença é que hoje acontece com menos controle e muito mais riscos. Os exemplos de Senhor do Bonfim e Estância mostram que regulamentar é reconhecer a realidade para proteger vidas, preservar uma tradição e devolver ao Estado a possibilidade de organizar aquilo que nunca conseguiu – nem conseguirá – impedir. Regulamentadas, as espadas podem gerar emprego, renda e um fluxo turístico que só nós, em todo o mundo, sabemos como fazer.

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Flavia Azevedo/Correio da Bahia,

Publicado em 4 de julho de 2026 às 13:00
Mostrar mais

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

20 + onze =

Botão Voltar ao topo