
O inédito voto direto que vai decidir quem comandará a Universidade Federal da Bahia (Ufba) pelos próximos quatro anos já era um desejo do professor Fernando Conceição antes mesmo de se tornar realidade. Assim que decidiu se candidatar novamente ao cargo de reitor, o docente da Faculdade de Comunicação acionou o Ministério Público Federal (MPF) questionando a eleição. Quis o destino que uma nova lei estabelecesse a votação direta, sem lista tríplice, sendo a Ufba a primeira instituição federal a experimentar o novo formato.
Esta entrevista integra uma série especial sobre a sucessão na Universidade Federal da Bahia (2026–2030), marcada pelo inédito voto direto, sem lista tríplice, conforme a Lei nº 15.367/2026. Quatro chapas disputam — Mais Ufba (Penildon Filho e Bárbara Coelho), Somos Ufba (João Carlos Salles e Jamile Borges), Ufba Insurgente (Fernando Conceição e Célia Sacramento) e Nossa Ufba (Salete Maria e Menandro Ramos) — e as entrevistas são publicadas entre segunda (4) e quinta-feira (7), seguindo a ordem das chapas divulgadas pela Ufba. A votação acontecerá entre os dias 20 e 21 de maio, com resultado a ser divulgado no dia 22.
Em 2022, o senhor se candidatou ao cargo de reitor, mas não obteve votos para ingressar na lista tríplice. O que motiva participar do processo eleitoral novamente?
A primeira coisa é que a regra do jogo mudou. Durante mais de 70 anos, as eleições eram realizadas por um colégio eleitoral restrito, composto de diretores, pró-reitores e representantes do DCE [Diretório Central dos Estudantes] e representantes do sindicato. Quando resolvi me candidatar em 2022, já criticava esse processo viciado. Eu e a professora Célia Sacramento encaminhamos documentos à reitoria, chegamos ao Ministério Público Federal questionando o processo eleitoral. A universidade negou esse pedido. Foi preciso que se aprovasse uma lei no Congresso através de um parlamentar, que enxertou essa a mudança para as eleições diretas. De certa forma, parcialmente, nós, eu e a professora Célia, já fomos vitoriosos.
A chapa chama-se Ufba Insurgente, que tem como definição enfrentar poderes estabelecidos que querem se conservar. A Ufba é uma universidade bastante conservadora. Não há alternância de poder no sentido ideológico. O primeiro passo é combater os conservadores que querem se manter como se a universidade pública fosse uma capitania hereditária. A Ufba hoje está um caos. A questão da mudança de sistema de matrículas nos últimos tem trazido prejuízos terríveis. A universidade está com um problema sério também de patrimônio, que está totalmente deteriorado.
A maioria das residências universitárias está caindo aos pedaços, há problemas no restaurante universitário. Então, tem um problema de gestão muito sério e grave. A responsabilidade é desses gestores que estão há 12 anos e querem permanecer. Nossa ideia é acenar para uma Ufba mais avançada, tecnologicamente conectada, mas que olhe para as pessoas que nela estão: estudantes, professores e técnicos administrativos.
A Ufba reconheceu este semestre como atípico, e os alunos denunciam problemas de falta de ofertas de vagas em diferentes cursos. Como resolver esse problema?
Você está falando do o SIGAA [Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas]. Trata-se de um problema de gestão. A própria reitoria emitiu uma nota pública informando que o responsável por esse descalabro foi o vice-reitor [Penildon Silva Filho, também candidato a reitor] que ocupou o cargo de pró-reitor de graduação por oito anos.

Outra grande questão que afeta a Ufba é a evasão dos estudantes. Quais propostas a chapa traz para resolver esse problema?
Nós temos que buscar soluções não tão ortodoxas. Existe o orçamento fiscal do atual governo, que impôs limitações draconianas ao orçamento das universidades. Olha a contradição: o governo abre mais universidades e traz estudantes vulneráveis economicamente, mas deixa esse pessoal todo ao Deus dará, sem residência universitária. A situação é terrível. Muitos estudantes estão evadindo, boa parte está deixando de estudar porque ingressou com o sonho de fazer universidade e encontra essa realidade.
Precisamos conversar com os atores envolvidos, o governo federal, agências de fomento, mas não somente no Brasil. Temos que mobilizar, inclusive, setores de fora do mundo acadêmico que possam colaborar, como fundações nacionais e internacionais. Eu e a professora Célia temos capacidade para buscar apoio no exterior.
Como se daria esse ‘apoio do exterior’ na prática?
É possível dizer que a Ufba se torna mais democrática à medida em que realiza eleições pelo voto direto?
A mudança de regras do processo não significa que ele será igualitário. A reivindicação da nossa chapa, desde o início, era que o processo se desse por urnas eletrônicas. Nós até encaminhamos um documento propondo uma parceria entre a Ufba e o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) para que a votação se desse em urnas, o que é totalmente factível e possível. Mas a universidade rejeitou.
A votação será em urna de papel, possibilitando o maior risco de fraude, principalmente na apuração. Imagine quantas unidades a Ufba tem e, em cada uma delas, será instalada uma mesa de votação. As chapas têm que indicar fiscais em Salvador, Camaçari e Vitória da Conquista. Quer dizer, os candidatos devem ter musculatura para regimentar fiscais, havendo a possibilidade de manipulação.
Perfil do candidato
O candidato Fernando Conceição é doutor e mestre em Ciências da Comunicação na Universidade de São Paulo (USP), possui graduação em Comunicação/Jornalismo pela Ufba. Tem pós-doutorado, com bolsa da Capes, na Freie Universität Berlin/Lateinamerika-Institut. Fundou o Movimento Pelas Reparações dos Afro-Descendentes, abrindo a discussão de políticas de ação afirmativa como cotas nas universidades brasileiras. Também é biógrafo autorizado do intelectual e geógrafo Milton Santos.
Fonte: por Maysa Polcri/Correio da Bahia,



