
Fundada no fim de 2019 e sediada no principal centro financeiro de Salvador, na Avenida Tancredo Neves, a Alya Space se apresenta como uma das iniciativas privadas mais ambiciosas do setor espacial brasileiro.
Com foco na observação da Terra por meio de uma constelação de nanossatélites em órbita baixa, a empresa projeta o lançamento de 216 satélites equipados com sensores ópticos e de radar de alta resolução (50 cm/pixel), organizados nas fases Alya-1 e Alya-2, e mantém um contrato avaliado em aproximadamente US$ 675 milhões, valor que representava cerca de R$ 3,4 bilhões na conversão cambial da época do fechamento do negócio.
A proposta é operar uma rede capaz de gerar imagens a cada 10 minutos, com atualização tecnológica bienal da frota, voltada a áreas estratégicas como agronegócio, mineração, monitoramento ambiental, cidades inteligentes, energia limpa e resposta a desastres naturais.
Nos últimos dias, o nome da empresa ganhou repercussão internacional após um relatório do Comitê Seleto sobre a China, ligado ao Congresso dos Estados Unidos, afirmar que o Brasil abrigaria uma “base militar secreta chinesa” em Salvador. O documento cita uma instalação chamada Estação Terrestre de Tucano e associa a estrutura à parceria entre a empresa brasileira e a companhia chinesa Beijing Tianlian Space Technology.

A Alya Space, por sua vez, nega qualquer vínculo com atividades militares ou operações secretas e afirma atuar exclusivamente sob marcos civis e comerciais.
Origem do projeto
A gênese da Alya Space não partiu de um laboratório aeroespacial, mas de um problema prático enfrentado no mercado brasileiro. A fundadora e CEO, Aila Raquel Cruz Ribeiro, é arquiteta e urbanista de formação e ingressou no setor espacial em 2019, ao perceber a dificuldade de acesso a imagens de satélite de alta precisão para projetos desenvolvidos no Brasil.

Em entrevista ao Portal RFI, ela explicou que a ideia da empresa nasceu justamente dessa lacuna tecnológica e comercial.
“Eu percebi que havia um gap muito grande sobre não termos satélites brasileiros para fazermos imagens brasileiras e, portanto, ter aquele preço acessível a qualquer brasileiro”, conta.
Projeto articulado com especialistas
Sem formação em engenharia aeronáutica, astronomia, matemática ou física, Aila afirma ter estruturado o projeto a partir da articulação com especialistas e centros de pesquisa. Ainda em 2020, venceu o Desafio Amazônia 4.0, promovido pela Força Aérea Brasileira, e participou do design da missão Alya-1 em parceria com o Instituto de Estudos Avançados (IEAv), vinculado ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial.
Satélites em escala industrial
Em entrevistas, Aila também detalhou o processo de busca por um fabricante capaz de produzir os satélites em escala industrial. Ao explicar a escolha pelo grupo asiático responsável pela fabricação, afirmou ao Portal RFI:
“O parceiro atual que está desenvolvendo, integrando os meus satélites e me auxiliando em todo o passo a passo até chegar ao satélite em órbita é a Hong Kong Aerospace Technology Group”
“Eu tinha procurado por toda a Europa. Ainda não tinha encontrado uma empresa que pudesse fazer uma integração tão rápida e massiva e com alta qualidade [como] o que encontrei em Hong Kong. Hoje em dia, eles têm o ISO e uma automação fantástica, utilizam a inteligência artificial e muita robótica”
A partir dessa parceria, o projeto ganhou escala internacional e viabilidade industrial.
A Alya mantém uma fazenda experimental na região semiárida de Tucano, na Bahia. O local é descrito como área de calibração para sensores em órbita, onde são simuladas condições de vegetação, solo e água para geração de dados de referência. Esses dados serviriam para desenvolver algoritmos capazes de alimentar sistemas de inteligência artificial embarcados nos satélites, permitindo reconhecimento automático de padrões e emissão de alertas.
A empresa também projeta a construção de uma das primeiras estações terrestres comerciais do país, responsável pelo controle da constelação e pela recepção e transferência de dados.
O contrato de US$ 675 milhões com Hong Kong
O avanço mais significativo da companhia ocorreu em outubro de 2023, quando o Grupo de Tecnologia Aeroespacial de Hong Kong anunciou a assinatura de um contrato para a construção do Sistema Alya-1.
À época do anúncio, o valor representava cerca de R$ 3,4 bilhões na conversão cambial.

Sobre a escolha do fabricante asiático, Aila afirmou:
Ela explicou ainda o critério da decisão:
“Eu tinha procurado por toda a Europa. Ainda não tinha encontrado uma empresa que pudesse fazer uma integração tão rápida e massiva e com alta qualidade [como] o que encontrei em Hong Kong. Hoje em dia, eles têm o ISO e uma automação fantástica, utilizam a inteligência artificial e muita robótica”
Posicionamento oficial da empresa
A repercussão do relatório do Comitê Seleto sobre a China, ligado ao Congresso dos Estados Unidos, colocou a Alya Space no centro de um debate geopolítico sensível. O documento sugere que a empresa abrigaria uma instalação classificada como “não oficial” e associada a interesses estratégicos chineses no continente.
Logo na abertura do comunicado, a empresa afirma:
“A Alya Space é uma empresa brasileira do setor espacial, sediada em Salvador (BA) e fundada no final de 2019, dedicada ao desenvolvimento de soluções espaciais sustentáveis voltadas ao monitoramento ambiental, análise territorial e apoio à tomada de decisão estratégica por meio do uso responsável da tecnologia espacial.”
No texto, a companhia detalha o estágio atual do projeto e o escopo técnico da constelação:
A empresa também enfatiza que ainda não opera comercialmente:
“Atualmente, suas atividades concentram-se em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e provas de conceito tecnológicas, etapa necessária à construção segura e estruturada de um projeto espacial de longo prazo, não havendo operação comercial ativa prevista para 2027.”
“A conformidade regulatória é um dos pilares centrais da Alya Space. A empresa conduz seus processos em estrita observância às legislações brasileiras e internacionais aplicáveis, atuando junto à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para licenciamento de radiofrequências e coordenação internacional junto à União Internacional de Telecomunicações (UIT), onde obteve o status de operadora de satélites e autorização para uso orbital de sua constelação, seguindo rigorosamente as normas vigentes em todas as etapas do projeto.”
A Alya também relaciona sua atuação à Agenda 2030 da ONU:
Por fim, a empresa rebate diretamente a associação a atividades militares:
“As interpretações que associam a empresa a atividades secretas de vigilância estratégica ou aplicações militares não refletem sua atuação. A Alya Space opera sob princípios estritamente civis, comerciais e alinhados às legislações nacionais e internacionais aplicáveis.”
“A empresa permanece à disposição das autoridades, parceiros institucionais e da sociedade para quaisquer esclarecimentos adicionais, reiterando que todas as suas atividades são conduzidas dentro dos marcos legais vigentes e orientadas ao desenvolvimento sustentável da economia espacial e ao benefício coletivo da humanidade.”
Expansão internacional e articulação institucional
A Alya Space também está em processo de incorporação na Europa, como parte da estratégia de internacionalização. A empresa afirma ter firmado mais de uma dezena de parcerias comerciais, incluindo cooperação com a Stellar Modal (EUA) e a Moon Aldeia (Brasil), além de integrar a Aliança das Startups Espaciais Brasileiras (ASB).
Entre inovação, geopolítica e mercado
A Alya Space surge em um momento de crescente disputa internacional pelo domínio de infraestrutura espacial, especialmente em órbita baixa. Constelações comerciais tornaram-se ativos estratégicos tanto para economia quanto para segurança.
Ao mesmo tempo em que projeta democratizar o acesso a imagens de satélite no Brasil, a empresa se vê inserida em um debate geopolítico que ultrapassa suas fronteiras corporativas. O relatório do Congresso dos EUA adicionou uma camada diplomática a um projeto que, segundo sua fundadora, nasceu de uma lacuna de mercado.
Nota na integra
Alya Space — Nota Oficial à Imprensa
A Alya Space é uma empresa brasileira do setor espacial, sediada em Salvador (BA) e fundada no final de 2019, dedicada ao desenvolvimento de soluções espaciais sustentáveis voltadas ao monitoramento ambiental, análise territorial e apoio à tomada de decisão estratégica por meio do uso responsável da tecnologia espacial.
Atualmente, suas atividades concentram-se em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e provas de conceito tecnológicas, etapa necessária à construção segura e estruturada de um projeto espacial de longo prazo, não havendo operação comercial ativa prevista para 2027.
A conformidade regulatória é um dos pilares centrais da Alya Space. A empresa conduz seus processos em estrita observância às legislações brasileiras e internacionais aplicáveis, atuando junto à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para licenciamento de radiofrequências e coordenação internacional junto à União Internacional de Telecomunicações (UIT), onde obteve o status de operadora de satélites e autorização para uso orbital de sua constelação, seguindo rigorosamente as normas vigentes em todas as etapas do projeto.
As interpretações que associam a empresa a atividades secretas de vigilância estratégica ou aplicações militares não refletem sua atuação. A Alya Space opera sob princípios estritamente civis, comerciais e alinhados às legislações nacionais e internacionais aplicáveis.
A empresa permanece à disposição das autoridades, parceiros institucionais e da sociedade para quaisquer esclarecimentos adicionais, reiterando que todas as suas atividades são conduzidas dentro dos marcos legais vigentes e orientadas ao desenvolvimento sustentável da economia espacial e ao benefício coletivo da humanidade.
Fonte: Por Luan Julião/Atarde,



