
Antes de abastecer, motoristas de todo o país passam a conviver, a partir deste sábado (1º), com uma mudança na composição da gasolina comum. O combustível agora conta com 32% de etanol anidro ,e substitui a mistura anterior, que continha 27%. A alteração, aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), levanta dúvidas sobre os impactos no desempenho e na durabilidade dos veículos.
De acordo com especialistas em manutenção automotiva ouvidos pelo g1, os modelos mais antigos devem ser os mais afetados pela nova gasolina. Carros equipados com carburador e tanque metálico estão entre os que podem apresentar maior desgaste, enquanto veículos com injeção eletrônica conseguem compensar parte da mudança por meio da central eletrônica, embora ainda possam registrar aumento no consumo e redução da autonomia.
Com mais etanol na mistura, o consumo pode aumentar ligeiramente. Acredito que no máximo 5%”, afirmou Alexandre Dias, mecânico e proprietário das oficinas Guia Norte.
A explicação está nas características do etanol, que possui menor poder energético em comparação com a gasolina. Segundo o professor e técnico em mecânica automotiva Tenório Júnior, motores desenvolvidos exclusivamente para gasolina operam com uma taxa de compressão inferior à ideal para aproveitar o combustível vegetal.
A compressão dos carros a gasolina baixa, o suficiente para fazer a gasolina entrar em combustão, mas não o suficiente para ‘queimar’ com eficiência o etanol. Isso gera falhas, perda de potência e dificuldade nas partidas a frio”, explicou Tenório.
Entre os componentes que exigem maior atenção está o carburador, presente em veículos mais antigos. Diferentemente dos sistemas de injeção eletrônica, ele não ajusta automaticamente a proporção entre ar e combustível quando há alterações na composição da gasolina.
Os carburadores são ‘burros’. Eles não se adaptam ao combustível. Nos carburadores, a passagem de ar e de combustível para obter a mistura ideal é fixa”, apontou o professor..
Além da perda de desempenho, o aumento da concentração de etanol também pode acelerar a corrosão da peça. O mecânico Bruno Bandeira alerta que o material utilizado nesses equipamentos não foi projetado para suportar níveis mais elevados do biocombustível.
Esse material não foi feito para suportar etanol, então olha o que está fazendo. Esse carburador tá condenado”, afirma.
Outro ponto de atenção é o tanque metálico, comum em automóveis fabricados há décadas. Como o etanol absorve mais umidade, a presença de água pode favorecer processos de corrosão. Nos modelos mais recentes, equipados com tanques plásticos, esse risco tende a ser menor.
Os especialistas também alertam para possíveis impactos em outros componentes do veículo:
- A bomba de combustível pode sofrer corrosão caso o carro permaneça parado por longos períodos.
- Bicos injetores parcialmente obstruídos podem provocar falhas e marcha lenta irregular, já que a central eletrônica aumenta o tempo de injeção para compensar a menor eficiência energética da nova gasolina.
- Velas de ignição desgastadas também podem dificultar a combustão
- O catalisador pode ter sua vida útil reduzida caso o combustível não seja queimado completamente.
Em veículos antigos, mangueiras, retentores e vedações também podem apresentar desgaste acelerado. Nos automóveis equipados com injeção eletrônica, a adaptação à gasolina E32 tende a ocorrer com mais facilidade.
Já nos veículos carburados, o processo pode ser mais complexo. Tenório explica que será preciso substituir e regular os giclês, peças responsáveis pela dosagem de combustível e ar, até encontrar a configuração adequada para a nova mistura.
Não existe uma tabela pronta para esse tipo de combustível. É um processo de tentativa e ajuste até encontrar o funcionamento correto”, detalhou.
Apesar de a expectativa ser de que a maior parte dos carros modernos consiga operar normalmente com a nova composição, especialistas recomendam que os proprietários fiquem atentos a sinais como aumento do consumo, perda de potência, falhas na partida e funcionamento irregular do motor. Caso esses sintomas apareçam, a orientação é procurar uma oficina especializada para avaliar o veículo.
Fonte: por Cauan Borges,
Publicado em 01/08/2026, às 10h57



