Servidor da UFRB é condenado por cortar o próprio pé para tentar receber seguro de R$ 1,5 milhão
Chama atenção pela frieza': caso é considerado inédito no Brasil e não cabe mais recurso

A história poderia ter sido de um filme de terror. Na madrugada do dia 10 de agosto de 2019, o servidor público Vanderley dos Santos Gomes – na época, com 26 anos – narrou uma sequência de acontecimentos chocantes. Ele teria sido vítima de um assalto em Cruz das Almas: Vanderley afirmava ter sido abordado por dois homens que o forçaram a entrar em um veículo, roubaram seus pertences e, antes de abandoná-lo numa área rural, cortaram seu pé direito.
Essa tentativa de ‘golpe do seguro’ levou a uma condenação de dois anos de reclusão por estelionato. Trata-se de uma situação inédita na Justiça brasileira. Até então, houve casos em que a própria pessoa havia cortado um dedo com o objetivo de receber o seguro, mas nunca nada como um pé e parte da perna.
A primeira sentença, que condenou Vanderley por fraude na primeira instância, saiu em 2024. Sua defesa entrou com recurso, mas, em 2025, o Tribunal de Justiça do Estado (TJ-BA) manteve a condenação. Houve o trânsito em julgado e, em maio, ele foi intimado para cumprir a pena. Agora, não há mais como recorrer.
“É um caso que chama muita atenção pela frieza. Uma fraude de seguro de veículo ou de incêndio são situações mais comuns no nosso dia a dia. Mas a gente está falando de uma lesão à própria pessoa. Chamou atenção por ter sido algo que a gente nunca tinha visto e que vai ter uma sequela pelo resto da vida”, diz o advogado Adriano Scattini, da Advocacia Zacarelli, criminalista com 15 anos de atuação no combate aos golpes contra o mercado segurador.
Ele foi um dos profissionais da Advocacia Zacarelli que auxiliou a polícia na elucidação do caso. O escritório representou as seguradoras envolvidas. “A seguradora muitas vezes é vista como uma figura poderosa que nega os sinistros, mas se há pagamento de um sinistro fraudulento, há impacto no fundo comum. É dever da seguradora atuar com as autoridades”, acrescenta o advogado, em entrevista ao CORREIO, nesta terça-feira (16).
Apólices
Segundo a denúncia do MP-BA, a que a reportagem teve acesso, Vanderley fez quatro contratos de apólice de seguros de vida individual e de acidentes pessoais em menos de um mês. A primeira foi com a Tokyo Marine, em 17 de junho, e ele receberia R$ 800 mil em caso de indenização. Dois dias depois, em 19 de junho de 2019, fez um com a Allianz Seguros com uma indenização correspondente a R$ 400 mil.
“Nesse caso, assim que foi feita a comunicação do sinistro, o analista responsável já presta atenção a alguns detalhes que a gente orienta, como a proximidade da contratação da apólice do dia do evento”, analisa Adriano Scattini.
De acordo com ele, é comum que as pessoas que contratam seguro de vida pensem no futuro. No entanto, se ela não tem histórico de contratação – como era o caso – e uma situação como essa ocorre, a história é vista com estranheza. Outro ponto de desconfiança é o valor alto para contratação do seguro, em comparação aos vencimentos de quem contrata. No caso de Vanderley, na época, segundo a investigação, ele recebia R$ 3.564,51 como técnico-administrativo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
“A própria história também era muito estranha, porque ele dizia que foi abordado por duas pessoas que o levaram para um matagal, onde levou alguns golpes e amputaram o pé. Se era meramente um roubo, não teria por que o levarem para um matagal”, diz o advogado. Um perito médico também foi contratado para analisar o corte, se seria algo condizente com golpes de facão mesmo.
Ter mais de uma apólice de seguro de vida não é algo incomum, entre contratantes com melhores condições financeiras. Pela legislação brasileira, uma pessoa pode contratar quantos seguros de vida quiser – diferentemente do que acontece na contratação de um seguro de carro, por exemplo. “O que é incomum é quando a pessoa às vezes não dispõe de capacidade financeira (para comprar a apólice), então tem que ver o histórico”.
O valor de um seguro também é individualizado e depende de vários fatores – da existência de doenças até os riscos aos quais ela está exposta. Alguém que trabalha como segurança de uma agência bancária, por exemplo, é considerado pelas seguradoras como um contratante mais exposto aos riscos do que um funcionário público.
De acordo com dados divulgados pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) no ano passado, 13,3% dos sinistros ocorridos em 2025 foram considerados suspeitos – eles totalizaram R$5,4 bilhões de R$ 41 bilhões envolvidos. Dos suspeitos, aproximadamente R$ 1,1 bilhão foi efetivamente confirmado como fraude ao longo do ano passado, representando 20,3% dos sinistros com indícios de irregularidades. As fraudes mais comuns são relacionadas a automóveis (34,2%).
Facão
A sequência de acontecimentos narrada por Vanderley tanto à polícia quanto às seguradoras foi de que ele tinha embarcado em um ônibus na Rodoviária de Feira de Santana por volta das 18h30 do dia 9 de agosto de 2019. Ele teria chegado em Cruz das Almas por volta das 20h e, lá, esperou que um amigo o buscasse, mas a pessoa nunca apareceu. Assim, Vanderley disse que decidiu ir até uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), perto do terminal rodoviário de Cruz das Almas.
Poucos minutos depois, ainda na mesma avenida onde fica a UPA, ele teria sido abordado por dois homens que estavam a bordo de um carro preto. Um dos suspeitos apontava uma arma e teria obrigado que ele entrasse no carro. No veículo, foi agredido e teve que entregar o dinheiro (cerca de R$2 mil que disse ter sacado para pagar contas pessoais), celular e outros pertences.
De lá, seguiram para uma estrada de chão e Vanderley disse não saber onde estava, por estar com olhos vendados. Quando foi colocado para fora do carro, contou que um dos suspeitos sentou em suas costas enquanto outro puxou sua perna. O segundo teria começado a dar golpes na perna dele, na altura do tornozelo. Vanderley disse que acreditava que estavam usando um facão pela força dos golpes e que desmaiou porque a dor era insuportável.
No final, Vanderley foi localizado no Povoado de Mercês, em São Gonçalo dos Campos. Ele foi socorrido pela Polícia Militar e encaminhado ao hospital municipal da cidade, mas depois transferido ao Hospital Geral Clériston Andrade, em Feira de Santana. Lá, ele passou por um procedimento cirúrgico.
Naquele mesmo dia, policiais civis foram acionados depois que um pé humano foi encontrado perto dali, junto à cancela de uma fazenda, assim como outros objetos (sapatos e uma mochila).
Decisão
Na sentença, o juiz João Batista Bonfim Dantas, da Vara Criminal de São Gonçalo dos Campos, afirmou que a versão de Vanderley não merece credibilidade por não encontrar lastro nas provas.
“Essa teia formada por elementos probatórios, qualificada pelas evidentes contradições na versão do acusado, quando confrontada com as provas submetidas ao crivo judicial tornam a ocorrência do fato descrito na denúncia incontroversa sobre a responsabilidade penal da conduta. Por todo o exposto, não é coerente e verossímil a versão do réu de que estando em Cruz das Almas e não tendo ele qualquer inimigo ter sido interceptado por alguns indivíduos, cuja quantidade ele não se recorda, e em seguida levado de Cruz das Almas até a zona rural de São Gonçalo dos Campos, por um meio que ele também não se lembra, e nessa zona rural, próximo ao distrito de Mercês, ter seu pé direito amputado por meio de golpes ou ação mecânica que ele também não sabe precisar, sem qualquer motivo relevante”, escreveu o magistrado.
O juiz destacou que não era “crível” que um servidor público de universidade federal, que estava com salário reduzido pelo afastamento, contratasse quatro seguros de vida em um curto espaço de tempo. O magistrado pontuou que o réu era uma pessoa jovem e sem doença conhecida e que teria criado uma “história ardilosa”.
“Noutro giro, a narrativa apresentada pelo Apelante revela-se inverossímil e repleta de contradições que comprometem sua credibilidade. Observe-se que este afirmou não possuir inimigos ou desafetos, mas foi, supostamente, sequestrado por desconhecidos que, sem qualquer razão aparente, o teriam mutilado de forma extremamente violenta. Malgrado se recorde de detalhes da contratação dos seguros, demonstra, estranhamente, esquecimento sobre aspectos cruciais do suposto crime, a exemplo de características físicas dos agressores, tipo de instrumento utilizado na amputação, dinâmica específica da lesão e objetos subtraídos durante a empreitada criminosa”.
O acórdão também considera que a alegação de ter sido levado de Cruz das Almas até a zona rural de São Gonçalo dos Campos, “apenas para sofrer amputação gratuita, contraria a lógica criminal comum”. A decisão do TJ pontuou que não foi comprovado que, no dia dos fatos, ele foi atendido na UPA nem que desembarcou na rodoviária de Cruz das Almas.
Servidor
Vanderley afirmou à investigação que estava afastado do trabalho na UFRB desde 7 de maio de 2019, em virtude de um diagnóstico de síndrome de burnout.
Vanderley é servidor concursado da UFRB, tendo sido admitido no dia 14 de outubro de 2015. Ele era lotado no Centro de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas, como assistente em administração e com carga horária de 40 horas. Há relatos de outros afastamentos médicos em 2019.
O cadastro de Vanderley, contudo, continua ativo como servidor da instituição, no Portal da Transparência do Governo Federal. Em abril de 2026, último mês em que os dados estão disponibilizados, ele recebeu remuneração de R$5.450,50 após deduções, além de R$1.209 em verbas indenizatórias. Não há registro de afastamento no portal.
A assessoria da UFRB foi procurada, mas não respondeu aos contatos da reportagem por email e Whatsapp.
O espaço segue aberto para manifestação.
Fonte: por Thais Borges/Correio da Bahia,



