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Willer Tomaz apostou R$ 5 bilhões em bet, perdeu R$ 163 milhões e pede devolução

O advogado Willer Tomaz apostou quase R$ 5 bilhões no ano de 2025 em jogos on-line. Em apenas uma bet, a Blaze, ele movimentou R$ 10 bilhões entre ganhos e perdas. No mês passado, Willer procurou a Justiça para exigir que a casa de apostas devolva o dinheiro, alegando que é viciado em jogos e acusando a empresa de burlar regras de jogo para lucrar com sua suposta compulsão.

Em relatório da Polícia Federal que embasou operação do último dia 4 de agosto, Willer foi apontado como “verdadeiro hub financeiro, patrimonial e logístico” de investigados pela Máfia do INSS.

No processo, ao qual a coluna teve acesso, Willer mostra que a relação continuada o levou a uma das escalas mais altas do programa de fidelidade da Blaze: o nível 171.

Apostas durante viagem com Flávio

Willer apostava durante períodos relativamente curtos do dia, mas sempre em valores fora da realidade de um brasileiro médio. No dia 29 de julho, por exemplo, jogou das 2h às 4h. Nesse intervalo, fez 11 depósitos de R$ 100 mil cada e perdeu tudo após centenas de giros de roleta com apostas sempre acima de R$ 50 mil.

Naquele dia, Willer voou de volta dos EUA ao Brasil, dando carona ao senador Flávio Bolsonaro (PL) em seu jatinho – a relação próxima entre os dois virou assunto nacional nas últimas semanas, com notícias de que Flávio ficou hospedado em um apartamento de Willer em São Paulo, fez a festa de aniversário da filha em uma casa do advogado em Angra dos Reis (RJ) e que os dois viajaram juntos ao exterior cinco vezes em 2025.

Depois de comprovar renda enviando extratos de suas contas bancárias, que mostravam repasses milionários de seus escritórios de advocacia e de uma emissora de televisão maranhense, em 2023 (logo, antes da regulamentação), Willer passou a receber atendimento VIP na Blaze. Ele tinha um funcionário holandês da bet dedicado a atendê-lo pelo WhatsApp.

Conversas anexadas aos autos, na tentativa de provar que a casa de apostas foi imprudente, mostram o advogado irritado por precisar fazer reconhecimento facial cada vez que desejava sacar R$ 100 mil.

“Todos os saques estão pedindo reconhecimento facial. Isso dificulta muito, amigo”, reclamou em janeiro de 2025. Informado de que se tratava de imposição da nova regulação federal, protestou: “Meu Deus. Então aumenta o limite para saque, para R$ 500 mil por saque. Senão irá inviabilizar o tamanho do meu jogo. Esse reconhecimento facial está demorando até um minuto”.

O concierge logo voltou com uma solução proibida pela regulamentação que havia acabado de ser implementada: “Você não vai mais ser amolado com o reconhecimento facial, então você pode fazer quantos pedidos [de saque] quiser”. A medida é proibida pela legislação federal.

Ele queria, afinal, uma linha de crédito como a que tem em Las Vegas. “As autoridades reguladoras estão me questionando, assim como os bancos. Existe alguma solução? Talvez criar uma linha de crédito para fazer uma única transação mensal? Assim como faço com os cassinos em Las Vegas. Tenho uma grande linha de crédito com cassinos como o WYNN e outros”, explicou, citando um cassino de luxo de Vegas.

Quando o ritmo da jogatina diminuiu a partir da primeira semana de março, o concierge dedicado a atendê-lo notou e quis saber por quê. Willer explicou que estava incomodado com a demora da Blaze em liberar seus saques e que havia se assustado com o relatório sobre a atividade da conta dele.

“Os números são extremamente altos, tanto em termos de movimentação quanto de perdas. Considerando o nível de atividade da minha conta, eu esperava, na verdade, algum tipo de verificação ou sugestão relacionada ao jogo responsável por parte da plataforma”, reclamou, em meados de março deste ano.

Do processo ao vício

Quatro dias depois de receber o relatório mostrando que perdia muito mais do que ganhava – os depósitos dele em 2025 somaram R$ 300 milhões e, os saques, R$ 137 milhões –, Willer já tinha um processo pronto contra a Blaze.

“O caso é baseado na forma como o sistema efetivamente funcionava na prática — especialmente na assimetria entre depósitos e saques, na retenção e reversão reiteradas de solicitações de saque, nos obstáculos operacionais que mantinham os recursos dentro da plataforma, nos incentivos vinculados às perdas e na ausência de medidas eficazes de jogo responsável, apesar do volume extremamente elevado de movimentações”, explicou Willer, recebendo do concierge a orientação de conversar direto com o jurídico.

Para atestar a ludopatia, Aragão anexou ao processo um laudo assinado em julho pelo psiquiatra Diego Canelhas. O documento cita que Willer estava “iniciando tratamento” e detalha que o psiquiatra examinou “a documentação trazida pelo paciente referente ao volume de dinheiro em apostas” e que os valores “falam por si só sem precisar de muito raciocínio”.

Os autos não trazem registro de que Willer tenha se cadastrado no sistema federal de autoexclusão – desde o fim do ano passado, cidadãos que se cadastraram ali não conseguem abrir contas, depositar, apostar ou receber publicidade segmentada das operadoras legais.

Aragão sustenta que Willer pediu que a Blaze bloqueasse sua conta e não foi atendido pela plataforma. Para tanto, juntou dois prints de breves diálogos entre um perfil não identificado e o chat de atendimento da Blaze. Não há registro de data das mensagens.

“Quero que vcs bloqueiem o meu acesso a jogos. E parem de me enviar promoções estimulando apostas. Estou com problemas de saúde. Estou viciado. Já perdi o que tinha e o que não tinha”, diz uma dessas mensagens, atribuída por Aragão a Willer.

De acordo com Aragão, Willer seguiu sendo alvo de publicidade dirigida da Blaze mesmo depois do pedido de exclusão. Para demonstrar isso ao juiz, juntou um print do grupo de Telegram com 474 mil inscritos no qual a Blaze divulga promoções para pessoas cadastradas e os prints de dois SMS oferecendo um crédito recompensa de R$ 1 mil e um giro diário com prêmios de até R$ 15 mil.

Ele também atua diretamente como advogado da RioPag, e seu escritório de advocacia, até pelo menos o mês passado, patrocinava uma associação de casas de apostas, a Aposta Legal, presidida por um funcionário do escritório – o mesmo funcionário que administra a cota de Willer no jatinho que também pertenceu a Daniel Vorcaro.

 

 

 

 

 

29/09/2026 15:11
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