
O que antes estava restrito às unidades prisionais para o fortalecimento da gestão do “escritório do crime”, hoje está além dos muros e em expansão. Indo no caminho inverso do Comando Vermelho (CV), que se instalou a partir de Salvador, o Primeiro Comando da Capital (PCC), se estabeleceu no interior da Bahia. A maior organização criminosa do país e uma das dez maiores do mundo, o PCC trava uma batalha nas ruas com a sua arquirrival em cidades como Ubatã, Jequié e Ibirapitanga, agravando o cenário da segurança pública no estado. Já outros municípios, como Ipiaú, detêm sozinho o narcotráfico.
Para o promotor, esta mudança no cenário em relação à maior organização criminosa do país na Bahia é o momento de tensão. “Mas os caras (Comando Vermelho) não vão aceitar perder os espaços”, diz ele, que será cada vez mais comum o enfrentamento entre o PCC e o CV no estado. “Até porque, a aliança recente entre as duas organizações não inclui a Bahia, porque o CV na Bahia tem uma certa autonomia em relação ao CV de São Paulo”, pontua.
Ipiaú
Na região Sul do estado, o PCC é maioral em Ipiaú. “A informação que temos é de que a atuação é só de uma facção, com vários pontos, no tocante à venda e distribuição (entorpecentes). Aqui, ela é soberana, mas temos em Ibirataia, cidade vizinha, a presença das duas (PCC e o CV)”, declara o delegado titular da cidade, Isaías Pereira. Um dos líderes da organização carioca, Marcos Antônio dos Santos Xavier, o “Juca”, foi preso pelas Ficco (Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado) da Polícia Civil no último dia 6 de fevereiro deste ano. O traficante foi alcançado em Santa Catarina, de onde, de lá, exercia um papel forte na guerra contra a expansão do CV no município, bem como em outras cidades, como Jequié, Itiruçu, Boa Nova, Manoel Vitorino, Iaçu e Valentina.

Traficante Juca foi preso em Santa Catarina Crédito: Divulgação
Pitasso, Playboy ou 220, como também é conhecido Juca, estava escondido em Barra Velha, interior catarinense. Após retornar do Espírito Santo, a advogada do traficante, Maria das Graças Barbosa dos Santos, de 50 anos, foi assassinada a tiros de pistola e fuzil em Ipiaú no último dia 24. Apesar de a Polícia Civil ainda não ter autoria e motivação, fontes que atuam na investigação do caso apontam duas possibilidades: a primeira, de a criminalista ter sido vítima do Comando Vermelho, pois supostamente haveria uma relação próxima com o grupo rival, ou tenha sido executada pelo próprio PCC, que desconfiava do estreitamento da advogada com CV e de ela ter informado o paradeiro de Juca.
Em nota, a OAB Bahia e OAB Subseção Ipiaú informaram que “não receberam nenhuma denúncia ou notícia acerca de supostas infrações ético-disciplinares na atuação profissional da advogada criminalista Maria das Graças Barbosa dos Santos, barbaramente assassinada em Ipiaú”.
Jequié
Juca do PCC atua também em Jequié, no Sudoeste baiano. Devido à guerra contra o CV, o município, em 2022, teve a maior taxa de homicídio por 100 mil habitantes do país, segundo o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Na época, a cidade registrou 88,8 óbitos para cada 100 mil pessoas. Em 2023, a cidade foi a terceira mais violenta nesse mesmo quesito, com 84,4 homicídios por 100 mil habitantes.

Advogada que tinha como cliente integrante do PCC pode ter sido morta pelo CV Crédito: Acervo Pessaol
Ubatã
O PCC está presente também em Ubatã, no Sul. No entanto, ao longo dos anos, sua força foi reduzida. Atualmente, a organização internacional está concentrada no bairro Alto da Bela Vista, enquanto sua arquirrival, o CV, mantém o controle dos pontos de venda e distribuição de drogas nas localidades de Várzea, Londrina, Júlio Aderne, Dois de Julho, Relíquia e Comunidade da Bica. “Até recentemente, o PCC era maioria, mas o CV foi atacando e ocupando território. No ano passado, foram 14 homicídios, sendo que 13 foram execuções do CV na área do PCC”, conta um morador da região.
A liderança do PCC na região é compartilhada entre “Bruxo” e “Cipan”, ambos acusados de crimes como roubo, assalto a banco e homicídio. Eles tentam recuperar incansavelmente os espaços perdidos para “Real”, gerente do CV na cidade.
Ainda na região, temos a rivalidade entre as duas organizações criminosas. O ápice da violência está concentrado em duas localidades. O Bairro do Cigano, que ainda é PCC, e o Bairro Novo, que antes era dominado pelo grupo paulistano, mas hoje é comandado pela organização carioca.
Posicionamentos
A reportagem pediu um posicionamento à Polícia Civil da Bahia (PC/BA), à Polícia Militar da Bahia (PM/BA) e à Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP/BA), mas, até o momento, não houve respostas.
Fonte: Correio/BA, 10/03/2025



